Pular para o conteúdo principal

Ser e desaparecer

Buchile e Vanessa seriam Sophia e Brando
Foto: Lidia Ueta


Por Valmir Santos

Como esses dois rostos e corpos consagrados do cinema sobreviveriam na era da saturação das imagens? Em Sophia Loren Não É Marlon Brando, a Companhia Subjétil coloca as duas épocas em contraste (o presumido glamour dos anos 1950 e 1960 e o pastiche atual). Ser e parecer são os verbos expostos em crise de auto-estima ou em seu excesso. Os biótipos de Vanessa Benke e Lucas Buchile estão longe das silhuetas em pauta. Ótimo ponto de partida.

O texto e a direção de Darlei Fernandes jogam com as contradições da imagem. Suas figuras querem ser vistas, seguem o script nos gestos e vestimentas, na sedução a toda prova. Elas são trazidas para o espaço cênico arrastadas por um homem que faz às vezes de um diretor, seu clichê. É ele quem, afinal, inicia tudo ao adentrar pela janela do teatro, megafone em punho. Redivivos, a Sophia e o Brando de Vanessa e Buchile discursam sobre a consciência de serem eles mesmos ou serem outros. Ela é mais desenvolta nesse trânsito.

Os ícones evocados acabam ratificando o desgaste da reprodutibilidade nos dias atuais. São apêndices na dissertação da Subjétil sobre o imperativo do descartável . O conteúdo desse processo resvala de modo parcial na analogia do aceleramento midiático moldando as relações. A transposição para a cena derrapa no anedótico, engolida justo pela força dos emblemas que elege. A crítica termina em baixo relevo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Zona erógena e cócegas

Cena  parte de texto de catalão e é dirigida por André Carreira }  Elenize Dezgeniski Em “Romeu e Julieta”, o frei Lourenço afirma que “Esses prazeres violentos têm finais violentos/ E, em seu triunfo, morrem como o fogo e a pólvora./ Que se consomem quando se beijam”. Para além do fundo histórico e social da tragédia, a impossibilidade da consumação do amor juvenil em Shakespeare talvez nos diga mais sobre a sabotagem dos desejos na contemporaneidade. Um prolongado beijo entre personagens que se dizem irmãos, ele e ela, é um dos múltiplos ruídos propositalmente desestabilizadores em “La Belle Merde”, do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis. A objetividade científica da forma expositiva vem associada à apresentação de seminário ou conferência que aparenta se passar em sala de convenção ou sala de aula, ainda que sugira a neutralidade de um ambiente com uma cadeira e uma mesa discretas, além da luz invariável. Os atores Lara Matos, Lucas Heymanns e Mar...

Pecinhas para uma tecnologia do afeto – o teste – Teatro de ruído

O grupo Teatro de Ruído apresentou sete pequenas cenas espalhadas pelo espaço do Teatro da Caixa, todas em fase de experimentação – e por isso o subtítulo “em teste”. O espectador fica livre para escolher se assiste a uma cena ou se tenta transitar pelo espaço, para assistir pequenos trechos de duas ou mais cenas. Quem não conhece o grupo fica sem ter nenhum critério pra fazer uma escolha, sem nenhum norte que dê uma sugestão de por onde começar. Muitas pessoas, como eu, acabaram não vendo praticamente nada. Outras, que acompanharam alguma cena do início até o fim, ficaram sem perceber o que as cenas poderiam ter de comum, salvo pelos rastros dos dispositivos cênicos espalhados pelo espaço. Mesmo assim, foi possível perceber uma preocupação do grupo com a visualidade das cenas como partes de um todo, o que se expressava por um tratamento comum nos figurinos: os mesmos materiais, cores e texturas. Por outro lado, não havia uma preocupação com a visibilidade das cenas. É como se o públic...

Ronca o rancor

Princesa Ricardo (Marinelli) critica e escarnece da onda reacionária  }  Elenize Dezgeniski Provérbios, chavões, lugares-comuns, tanto faz, eles abundam na figura da Princesa Ricardo em “Das Tripas Coração”, arremedo de ópera-bufa em que o performer Ricardo Marinelli captura pela unha a narrativa reacionária que o Brasil nunca viu tão descarada. E dela escarnece apoiada nos vícios de linguagem. Funciona muito bem a analogia dos excessos diante da realidade transbordante, da virulência com que as vozes conservadoras perderam os pudores na desqualificação do diferente. A cena desossa o senso comum e abre outras portas para mostrar que os significados (das coisas, das vidas, das palavras) sofrem um desgaste sem precedentes no atual quadro sociopolítico. Texto-depoimento e ações podem soar literais ou desarmônicas, permitindo ao espectador um exercício permanente de verificar os anacronismos entre fala e expressão corporal que chamam ao pensamento crítico. Para essa figura...