Pular para o conteúdo principal

Pano para manga

Hélène e Patrícia como vó e neta
Foto: Elenize Dezgeniski


Por Valmir Santos

Como brincar com Dostoiévski? A introversão latente na obra do romancista russo ganha uma fresta na saudação que a Companhia Platô Invisível ou .0 faz ao conto Noites Brancas, tornado clássico no cinema por Luchino Visconti nos anos 1950. Trata-se de um triângulo amoroso. O narrador, ser solitário e sonhador, se enamora da adolescente Nastienka que encontra por acaso sobre uma ponte, aos prantos. Ele vai servir de interlocutor para os queixumes amorosos da moça, apaixonada por um inquilino, ávida por outros sentidos àquele mundo que lhe foi apresentada pela avó cega (os livros, o teatro) e ainda pela criada surda que, aqui, ficou de fora.

As atrizes Patricia Saravy e Hélène Reymaeker começam pelo começo: um prólogo com a gênese do encontro casual das duas no Rio de Janeiro, a primeira conhecida dos palcos curitibanos, a segunda vinda da Bélgica. Situam brevemente as regras do jogo (a palavra é bem essa, teatralmente falando) entre o francês, o flamengo, o espanhol e o português que serão escutados doravante. E lançam-se à adaptação para cena curta Dosto Noite, centrada na neta, na avó, no sonhador e no inquilino.

Todos são delineados por peças de figurinos que apóiam a narrativa. Um vestido ou uma calça, por exemplo, trazidos em mãos ou colados aos corpos – não necessariamente trajados – servem como principal suporte fabular. São as roupas que montam e desmontam as ações, um recurso de distanciamento que as atrizes aplicam com habilidade.

A história é condensada com frescor no rodízio de personagens, costurada por canções a capela, descrições convincentes de lugares e pessoas, um livro, uma cadeira. Assume-se deliberadamente o devaneio para tornar presentes os sentimentos atravessados pela moça, sua avó que a influenciou tanto a ser senhora dos seus atos e, sobretudo, pelos homens antagônicos que bifurcam seu destino. As narradoras entram e saem do conto. Quando Nastienka toca a porta no texto, a atriz toca o tablado. Todos os instantes de e da cena estão impregnados do signo do teatro e transportam para a Rússia daquelas páginas com ludismo.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sem pena

A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do palco, o varal de asas de frango espetadas e a panela elétrica que assa nuggets no proscênio …

Zona erógena e cócegas

Em “Romeu e Julieta”, o frei Lourenço afirma que “Esses prazeres violentos têm finais violentos/ E, em seu triunfo, morrem como o fogo e a pólvora./ Que se consomem quando se beijam”. Para além do fundo histórico e social da tragédia, a impossibilidade da consumação do amor juvenil em Shakespeare talvez nos diga mais sobre a sabotagem dos desejos na contemporaneidade. Um prolongado beijo entre personagens que se dizem irmãos, ele e ela, é um dos múltiplos ruídos propositalmente desestabilizadores em “La Belle Merde”, do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis. A objetividade científica da forma expositiva vem associada à apresentação de seminário ou conferência que aparenta se passar em sala de convenção ou sala de aula, ainda que sugira a neutralidade de um ambiente com uma cadeira e uma mesa discretas, além da luz invariável. Os atores Lara Matos, Lucas Heymanns e Marco Antonio Oliveira surgem alinhados à boca de cena. Têm atrás de si banners que exibem corpos nus …

Desencanto vital

Nem a fascinação nem a resignação. “Essa é a nossa linguagem!”, alguém avisa. O caminho do meio expandido e forrado de aptidões possíveis. A ação cênica “Outros Sobreviventes”, do Coletivo Mamulengos de Mameluri, mergulha no vale dos vácuos desencantados e de lá processa a capacidade de resiliência em produzir transformação, moto-contínuo de quem lida com arte. Há um pendor cumulativo na capacidade gregária de atrair trabalhadores cênicos de outros grupos de Curitiba e fazer do palco o seu terreno baldio a ser ocupado por/de figuras estranhas, objetos de filiações as mais diversas (livros, sofás, galões, figurinos soltos, etc.). Não deixa de ser uma demarcação para libertar-se daquilo que te prende: o teatro. Sobretudo seu desenho físico gerador de expectativas amortecidas, ou assim alimentadas pela maioria conformista daqueles que o habitam provisoriamente, independente da natureza arquitetônica do espaço. Desse amontoado em desordem crescente migramos para outras percepções. Há uma …