Por Valmir Santos
Orlandx em Constantinopla é uma performance que ser quer imponente. Seus aparatos criam um distanciamento radical, a começar pelo invólucro das peles, botas e capacetes ou figurinos-couraças para figuras narcísicas em seus nichos. Um DJ sampleia vozes e sons atrás de algumas plantas. Não consegui desprender ouvidos e visão daquele canto esquerdo, quem sabe porque o único elo de oxigenação que representava. E representação, diga-se, é dela que o Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus foge desafiadoramente como o diabo diante da cruz verde de luzinhas no corpete de uma cicerone feminina.
Enquanto isso, três figuras deslizam em carrinhos vaticinando seus ais. A ambiguidade e os impulsos sexuais são sugeridos por meio de objetos e sussurros ao microfone. Despontam projeções borradas na parede de fundo. Uma voz mecânica suplica a “verdade” que para nós, espectadores, tampouco identificamos na cena cercada em suntuosidade na mentira que essa arte também é. Enfim, difícil apreender resquícios do Orlando de Virginia Woolf nessa adaptação dirigida por Ricardo Nolasco: sem poros, sufocante tanto quanto insolente pela fixação em impactar. Hipérbole impenetrável.

1 comentários:
burla, bufa, bancos de seda imperial rasgados pelas unhas escarlates de uma indefinida espécie farsesca. A matéria negra que sai de seus olhos não é nada mais do que o borrão de uma noite vívida por demais. Demasiadamente, vívida, entrego-me aos supetões e as trompas dos canhões de guerra. O corpo é um local de batalha, alvo insolente de olhares que querem defini-lo. Fixar uma, duas ou três categorias para esta estrela em queda. Ela caiu, debulhou-se no chão como porcelana quebrada, rompida em hímem violenta. Não chamem os bombeiros, ela não precisa ser curada ou re-configurada, os pedaços e craquelos já são suficientemente parte de um todo que não pretende unir-se a uma matéria original. Postiça porcelana chinesa. Seus dentes caem, um a um, como num show coreografado por delicadas rainhas. Cortem a cabeça dela! Cortem a cabeça dela! Pra que um nariz quando já não se tem um sexo? Eu fujo na solidão inevitável dos híbridos e das vedetes. Eu construí um habitat quase natural para repousar minhas penas, os pavões me bicam os mamilos e eu regojizo esplêndido no leito macio que me foi dado. Estou só, como uma begônia desgraçada berrando insolências que somente ela poderá ouvir. Mas as raízes brotam pela porta, saem pelos buracos mal-construídos de um palacete gélido. Sou muralha de gelo! Mas quero ser a besta-fera suada e nua que arranca pedaços de uma carne flácida. Hipérboles serão sempre penetráveis.
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