Pular para o conteúdo principal

Consonância e separação

Janaina e Linhares, ela e ele
Foto: Lidia Ueta


Por Valmir Santos

A Súbita Companhia de Teatro ergue uma cena francamente verborrágica sobre o indizível. A palavra é veemente desde o título: Meus Olhos Estão Degringolando, adaptação da diretora Maíra Lour para texto não informado do romancista americano Jonathan Safren Foer. O verbo também está no coração da vida incomum de um casal sob o mesmo teto, partilhando a mesma máquina de escrever e separados por muros, corredores, demarcações territoriais de “algo” e “nada” equilibrados segundo as convenções desse homem e dessa mulher, por Otavio Linhares e Janaina Matter.

Os signos constitutivos da linguagem os fazem suportar um ao outro. Seria, grosso modo, a evolução de uma história de amor, sua ascensão e queda. A compressão temporal e espacial é feita de falas curtas, numa espiral de exasperação dele, escritor estancado, diante do talento dela ao jorrar e apropriar-se do mesmo ofício. A cena trata dessa perpendicular de duas pessoas desmagnetizadas aos poucos, ampliando as distâncias.

No espaço austero da encenação, linhas e embaraçamentos geográficos traduzem as inquietações em movimentos, gestos e ações dos atores, fluídos e interrompidos. À tessitura da palavra soma-se o vocabulário da luz (sombras narradoras de situações íntimas, por Daniele Régis) e da música como exceção ao silêncio dominante (o acordeão irrompendo com a dolência de Edith de Camargo). Toda separação precipita sua sinfonia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sem pena

A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do palco, o varal de asas de frango espetadas e a panela elétrica que assa nuggets no proscênio …

Ação de despejo

No mundo vasto mundo da cena curta, dificilmente uma criação imprime um percurso que possa se inferir com começo, meio e fim. A elaboração dramática em “Pour Poor Andy”, do Grupo P.U.T.O., assume unidades temporais e espaciais e, dentro delas, comete deslocamentos de percepção que enriquecem o imaginário em torno da mulher que faz da sua casa e do seu corpo não-lugares. Ela admite o quanto é ruim não se reconhecer em seu próprio corpo, equivalente à atitude de trancar-se no banheiro em plena festa que acontece em sua casa. É um achado a síntese construída em torno do ser associal, capaz de incomodar-se com o ruído da própria presença. A excelência técnica da intérprete Juliane Souto, também ela dramaturga, cria um colchão de gênero musical na dobradinha de voz e teclado com o músico Álvaro Antonio. Um colchão rítmico, em todos os sentidos, para deitar a solidão e a clausura da personagem. O jazz se traduz nas partituras físicas e nos desenhos de luz e da cenografia. Nem a delimitação …

Obscenas é que não são elas

E tudo recomeça do avesso. No verso, na “bunda” do teatro. O som do sapateado – em crescendo – detrás dos portões que dão acesso ao palco para carga e descarta de material. Ouvimos o sol sob os sapatos flamencos. A imaginação vai longe. Suspense. O que vem são quatro ciganas de pernas abertas e de peito aberto para tourear o machismo explícito e secular das sociedades, não importa a topografia. Na Antiguidade, assassinatos e batalhas sangrentas eram chamados obscenos por acontecerem fora do alcance da visão do público. Aqui, o espectador entra pelos fundos, permanece em pé, pode se agachar na clareira da cena no tablado ou avançar para os assentos da plateia propriamente dita, nos rearranjos e angulações possíveis para encontrar o campo de relação com a experiência. Em “Con la Carmen no Te Metas”, a Súbita Companhia de Teatro subverte o entendimento daquilo que está por trás do que está por trás. Escancara a obscenidade da violência contra a mulher, esse corpo-território disputado des…