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Zona erógena e cócegas

Cena parte de texto de catalão e é dirigida por André Carreira } Elenize Dezgeniski

Em “Romeu e Julieta”, o frei Lourenço afirma que “Esses prazeres violentos têm finais violentos/ E, em seu triunfo, morrem como o fogo e a pólvora./ Que se consomem quando se beijam”. Para além do fundo histórico e social da tragédia, a impossibilidade da consumação do amor juvenil em Shakespeare talvez nos diga mais sobre a sabotagem dos desejos na contemporaneidade. Um prolongado beijo entre personagens que se dizem irmãos, ele e ela, é um dos múltiplos ruídos propositalmente desestabilizadores em “La Belle Merde”, do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis. A objetividade científica da forma expositiva vem associada à apresentação de seminário ou conferência que aparenta se passar em sala de convenção ou sala de aula, ainda que sugira a neutralidade de um ambiente com uma cadeira e uma mesa discretas, além da luz invariável. Os atores Lara Matos, Lucas Heymanns e Marco Antonio Oliveira surgem alinhados à boca de cena. Têm atrás de si banners que exibem corpos nus e perfilados de costas. A placidez técnica com que discursam/elaboram os desejos – por vezes em relação ao outro, por vezes egocêntrico – deságua em tédio pesaroso, indutivo do mal-estar da intimidade e dos afetos secos, mas sempre com alguma pitada de sarcasmo. A cena é um excerto da peça “Mierda Bonita”, do catalão Pablo Gisbert, que estreou no ano passado, em Florianópolis, sob tradução e adaptação do grupo e direção de André Carreira. Nota-se que pornográfica não é a frente única das genitálias, mas a solidão e a verdadeira falta de intimidade na fixação pela busca de prazer. O pragmatismo desponta ainda mais frio e perverso se lembrarmos da peça do canadense Brad Fraser também levada ao cinema, “Amor e Restos Humanos” (1993), então sob o impacto da Aids. Não é a moral, ou melhor, a falsa moral que está em jogo, mas a assepsia desse simulacro de vontades irrefreáveis versus instintos amortecidos, por mais paradoxal que seja. O sexo é fim, não meio. Em sua usina de questionamentos urgentes, no embaralhar dos instintos, a criação do (E)xperiência Subterrânea explora a opacidade dos sentimentos. Já a matéria do fenômeno artístico está nas escolhas contrariantes que abarca. Via contrária ao amor romântico, o que pede mais atenção às sensações e reações. Como o pensar ligeiro durante o ato de pular corda. Afinal, o ódio se propaga no vácuo. (Valmir Santos)


Lara Matos e Lucas Heymanns em 'La Belle Merde' } Elenize Dezgeniski

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