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Desterrada

Olga Nenevê no solo 'Passio – 15’ Antes' } Elenize Dezgeniski

Numa tradução da antologia japonesa de escritos zen budista Zenrin-kushū, do século XVII, o poeta Haroldo de Campo erige, no espaço da página em branco, duas linhas paralelas e verticais nas quais se lê, em minúsculas: “a onda revela a essência da lua”; “a árvore desvela a substância do vento”. Pausa: pede-se reler com vagar. Essas imagens brotam da experiência de “Passio – 15’ Antes”, solo de Olga Nenevê, do Grupo Obragem de Teatro. O corpo nu de movimentos e ações enraizadas, maquiado com o pó da terra, dança coesão e ruptura no espaço vazio. É nesse oco que o elo ritualidade-ancestralidade confere equilíbrio ao vergar a coluna e ascender mãos aos céus, sob as injunções dos ossos, das posturas e da cosmovisão da artista. “É pessoal sim”, ela grita. “Sempre é pessoal”. A contagem regressiva para a experiência morte está na base da narrativa curta de paisagem sonora dolente, trilha composta por Edith Camargo. Os passos de Olga pesam como se caminhasse na aridez do deserto. O caso é que estamos na floresta. A árvore do pensamento vaga entre o desespero e a vitalidade de uma memória física. A intensidade reverbera a paixão do título em latim. Palavras de um ser alquebrado em sua dança biográfica. Biológica. Apego à arte que a orienta. O ofício em sua intimidade de luta primeira, à flor da pele: o eu em movimento com todas as garras. A performance sobre o fim não acaba, sugere o ato falho. O deslize técnico do timing do blecaute que induz o público ao aplauso, mas a luz retorna e a atuação segue seu curso, agora sim, para o desfecho (que também pode ser mais um hiato). A vida é ciclo. Em texto de sua lavra, central no sistema de signos em flutuação nessa peça curta, Olga Nenevê – espectadora “dessa pessoa de quem eu falo” – pisa os próprios vestígios e resíduos que, no final das contas, são dos sentidos do Obragem. Tudo leva a crer que salta sem rede, sob a direção do parceiro Eduardo Giacomini. Quem sabe, a sabedoria é senhora das evocações. (Valmir Santos)


Criadora da Obragem: deslimites } Elenize Dezgeniski

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