quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Circulação

Otavio Linhares e Janaina Matter na cena da Súbita
Foto: Lidia Ueta



Por CiaSenhas

Esta 7ª Mostra Cena Breve – A Linguagem dos Grupos de Teatro entra hoje na etapa de Circulação de quatro cenas pelos municípios de Araucária, Lapa, Paranaguá e União da Vitória.

São elas:
Meus Olhos Estão Degringolando, da Súbita Companhia de Teatro, de Curitiba; Quintal, da Casca de Nós Companhia de Teatro, de Belo Horizonte; Encostei Minha Angústia no Sol, do Grupo Teatro de Geada, de Curitiba; e Sophia Loren Não É Marlon Brando, da também curitibana Companhia Subjétil.

A votação do público, ao final de cada sessão, e a percepção dos debatedores conformam a escolha das quatro cenas que vão circular entre aquelas 16 apresentadas. Algumas produções bem recebidas não tinham disponibilidade para cumprir a agenda noturna na itinerância de hoje a domingo. Caso de
Compra de Personagem – Segunda Ação de Classificados, pelo Núcleo Cães Lacrimosos, de Curitiba, e de As Rosas no Jardim de Zula, pela Zula Companhia de Teatro, de Belo Horizonte – ambas entre as mais admiradas este ano.

Pois vamos à Circulação e à nossa primeira experiência em miniturnê com quatro cenas por quatro noites em quatro cidades distintas do Paraná. Na penúltima edição, a Mostra chegou a ter um braço em Araucária. E agora esticamos mais três pernas. Mãos às obras e pé na estrada de corpo inteiro!


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Jornada cena a cena adentro

Por Valmir Santos

Em seus sete anos, a Mostra Cena Breve Curitiba - A Linguagem dos Grupos de Teatro construiu um diálogo efetivo com os criadores das artes cênicas mobilizados pela vontade de pesquisa. Todos os núcleos locais inscritos nesta edição, testemunhamos, não participam por tabela. Idem para os trabalhos vindos de outras paragens. Cada um encerra a sua singularidade e argumenta com muita convicção as proposições estéticas e conceituais abraçadas. Melhor: sem perder a capacidade de escutar e enfrentar contradições até mesmo para assumi-las.

Outro aspecto relevante é o da recepção: o público não é formado apenas por aqueles vinculados aos criadores, despertados naturalmente pelas pesquisas cênicas, mas também pelo cidadão comum instigado a fruir o teatro com mais curiosidade. O espaço para a reflexão na roda de debates, a cada manhã seguinte, ou os escritos partilhados neste blog são instâncias abertas de afirmação da troca de percepções entre os artistas, os organizadores e, sobretudo, os espectadores no encontro ao vivo.

Particularmente, sublinho o privilégio da convivência com as sensibilidades da figurinista Amábilis de Jesus, da atriz e dramaturga Lucienne Guedes e do dramaturgo, diretor e performador Fernando Villar, todos eles pedagogos cúmplices e militantes. Simbiose assim só vem com atitudes artísticas e políticas que não faltam à CiaSenhas. Evoé!

A terceirização da cena

Dois "auxiliares de personagem" e Massa com jornal
Foto: Elenize Dezgeniski


Por Valmir Santos

Quer em projetos paralelos quer a bordo do coletivo Rimini Protokoll, o suíço Stefan Kaegi tem disseminado, desde a década passada, a incorporação de não-atores em seus trabalhos – performances ou intervenções ao ar livre ou convertidas para o palco. Motoristas de caminhão, ex-policiais, funcionários aposentados da ferrovia, porteiros, enfim, uma galeria diversa já protagonizou suas criações. O núcleo Cães Lacrimosos nos faz lembrar alguns procedimentos daquele europeu em
Compra de Personagem - Segunda Ação de Classificados. Profissionais de venda, treinamento pessoal, domésticas e estagiários são chamados por anúncios em jornais para listar atividades a um hipotético “artista impossibilitado de criar” ou mesmo dividir a cena com ele.

O “contrato” parece claro, delimita as atividades a 50 linhas, paga R$ 70,00 por cada lista e propõe um roteiro para vir a público no Novelas Curitibanas e contracenar com Clovis Cunha, à guisa de mestre de cerimônia dos anônimos na ribalta, devidamente recolhido na coxia na maior parte do tempo.

Ao contrário da cena elaborada em 2010,
Se Conselho Fosse Bom Seria Ação de Classificados, na qual consistia em consolar o contratante que levou um fora amoroso, material registado em vídeo e integrado depois à narrativa de fundo melodramática, aqui a proposta radica em transferir o máximo possível a mediação com o público para os profissionais que responderam aos anúncios – foram dezenas. O “durante” é feito do que o precedeu: a atitude do coletivo em dar passagem ao desconhecido sob risco de naufragar.

O resultado ao vivo tensiona um roteiro que pode ser subvertido a qualquer momento na representação que não o é no instante em que os “auxiliares de personagem” estão alinhados ou sozinhos sob os refletores, atrás de microfones. Suas vozes e posturas corporais são comuns, transportadas como um documento dos seus cotidianos. Aparentemente, os três homens posicionam-se à vontade. Cada em sua vez toca gaita, exibe fotografias de sua rotina e propaga os benefícios de se plantar um pinheiro (uma araucária típica paranaense?). As marcações de entrar, sair, postar-se sob o luz, enfim, tudo isso eles fazem e demonstram que ensaiaram minimamente.

Em sua terceirização ou paródia de, Compra de Personagem cumpre o enunciado a que se propõe pelo inusitado da ação que convoca artistas e público a mirar o ato criativo de outro lugar.



O terceiro "auxiliar" rememora imagens cotidianas
Foto: Elenize Dezgeniski


As armadilhas da farsa

Atores da Companhia Visceral em Realidades Irreais
Foto: Elenize Dezgeniski


Por Valmir Santos

A investigação da comicidade popular num encontro tomado por anseios formais e reticentes a gêneros seria uma distinção e tanta na última noite da Mostra Cena Breve. Os recursos da farsa identificados no início de
Realidades Irreais, porém, logo se revelam frágeis, a despeito do projeto de pesquisa informado pela Companhia Visceral.

O sexteto de atores é aguerrido nos tipos que abraça, pisa o espaço cênico a tentar nos convencer da arquitetura visível e invisível do sobrado posto à venda e alvo de todo o quiprocó. E as intenções artísticas não se concretizam. São risíveis, isto sim, a impossibilidade de se visualizar subidas e descidas de escada, o plano do andar de cima, a maneira um tanto atabalhoada como os personagens transitam. Na farsa, é natural que as atuações tangenciem a caricatura. Um meio, não um fim em si mesmo. Eis o limite.

Estamos diante de um exercício de formação com suas potencialidades plenas. As artimanhas sugeridas no texto não se instalam nas interpretações e nem nas soluções de espacialidade apresentadas. A continuidade da pesquisa pode lapidar esse processo.

O autor e diretor Alexandro Tenório é dos mais proeminentes tradutores e diretores do teatro realista inglês e suas gradações. Já montou muitos Harold Pinter em São Paulo e mais recentemente Jon Fosse, David Harrower e Alan Ayckbourn. Curioso e positivo encontrá-lo ao lado desse núcleo de jovens experimentando camadas outras em dramaturgia e atuação.


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Em nome de Machado e Brecht

Atores da Pausa na incursão machado-brechtiana
Foto: Elenize Dezgeniski


Por Valmir Santos

A Pausa Companhia vai a Machado de Assis com causa. Põe em relevo uma crônica de 1895, na qual o escritor interpreta com sua pena um crime brutal, o assassinato de uma bebê pelos pais em terras gaúchas. Sob os códigos do niilismo, o autor questiona a humanidade e sua vocação atávica para gerar dramas como esse. Tudo, é claro, com seu estilo corrosivo e bem-humorado. E o núcleo artístico o reinterpreta neste 2011 em conformidade com procedimentos brechtianos, a narrativa épica que permite ao público distinguir diagnósticos e sintomas de seu tempo.

Autor de Si Mesmo adota um sistema despojado para a cena. Valoriza o plano das ideias sem empolá-las. Ao contrário, a retórica do narrador poderia soa pernóstica, porque este é encarnado machadianamente à maneira do filósofo Arthur Schopenhauer. No entanto, o raciocínio é ilustrado a contento.

Um retroprojetor exibe balõezinhos de historias em quadrinhos no enredo que retrocede ao namoro dos pais e ao bebê vaticinando seu futuro antes mesmo da barriga. A citação à obra-prima do pensador alemão, O Mundo Como Vontade e Representação, corrobora a estratégia dessa criação coletiva ao problematizar a cena sem abusar do didatismo.

Se a direção é articulada em muitos aspectos, falta ao conjunto dos intérpretes uma sofisticação correspondente no trabalho corporal, inclusive para adensar o timming físico do sarcasmo. De qualquer modo, a Pausa instiga o interlocutor sem abrir mão da inteligência, a mesma que pressupõe o arrojo de cohabitar as artes de Machado e Brecht. Não é pouco.


Olhos d'água

Francis Severino e João Filho, Joaquim e Pedro
Fotos: Elenize Dezgeniski


Por Valmir Santos

Quintal, da Casca de Nós Companhia de Teatro, são duas crianças, a "velha" e a "nova", corresponsáveis por elas mesmas e cocriadores do reino da invenção que lhes permite dobrar a realidade. Dois meninos em busca de um pai que se foi. A esperança de sua volta é o que sustenta o realismo fantástico do mundo que eles carregam por meio de suas roupas, a lata d’água, as bolinhas. Do início ao fim, o espaço nu ganha composições por meio das mãos da dupla que o constrói ou o desmancha. Na primeira sessão no Novelas Curitibanas, as janelas abertas vazam a luz do dia, árvores e prédios. Os atores adentram, fecham as esquadrias e o escuro concorre com os primeiros fiapos luminosos da cena.

Estamos pisando um universo pequeno, que cabe na ponta de uma agulha, como informa a imagem inicial da dramaturgia banhada em lirismo rapsódico, aquele que mistura vozes narradoras e diálogos no transcorrer da ação, trazendo ecos da infância nos contos e romances de Guimarães Rosa em que a brincadeira com ossos animais simbolizam as formas da imaginação resistir e erguer beleza diante do precário. Mas quem ocupa a terceira margem do rio aqui é a poesia de Manoel de Barros, inspiração mor.

A direção de Joaquim Elias dá conta de apresentar percursos e paisagens do texto depositando tudo na presença dos atores, no corpo transportador dos sonhos, das fantasias e das dores. Nas atuações de Francis Severino e João Filho, este também o dramaturgo, enxergamos a beira do rio e somos cúmplices do caçula no sequestro da água a ser punido pelo pai do céu e da terra, como provoca em momento de descontração o primogênito, um ser que cuida e roga ser cuidado numa oração. O pendor cristão é insinuado na relação culpa/pecado, mas não se sobrepõe ao sagrado em sua dimensão mais essencial, despida do dogma.

O ato de correr em círculo sugere a temporalidade que também está contida na palavra. Um texto sobre o abandono e cuja extração poética aponta o diagnóstico contundente sobre a ausência dos adultos, um tema urgente nas sociedades contemporâneas ao questionar o que elas estão fazendo com suas crianças.


Os atores da Casca de Nós
Foto: Elenize Dezgeniski


Observação: texto reescrito a partir das impressões anotadas na apresentação de Quintal, em junho de 2011, no âmbito do 12º Festival Cenas Curtas organizado pelo Galpão Cine Horto em Belo Horizonte.