sábado, 15 de novembro de 2008

Da longa jornada


fotos: Elenize Dezgeniski
No alto, os artistas da CiaSenhas, idealizadora da Mostra; acima, uma das rodas de debate que refletiram sobre as cenas apresentadas na noite anterior


Foram seis noites de convivência, da mesa-redonda de abertura, ao lado de Francisco Medeiros e Claudia Schapira, às quatro noites com três cenas cada uma, 12 trabalhos de variados estilos, estéticas, temperamentos, éticas, atitudes, poéticas, desejos etc., somando-se a noite derradeira, com uma cena convidada de Belo Horizonte seguida da conversa com Chico Pelúcio, o pacote completo da IV Mostra Cena Breve Curitiba – A Linguagem dos Grupos de Teatro permitiu-me um primeiro contato efetivo com a ferramenta do blog. Deu para notar certa "lentidão" nos posts, a falta de timming.

Permitiu-me ainda a proximidade com o universo das chamadas cenas curtas, dos 15 minutos de teto a que muitas produções simplesmente ignoraram. Aliás, o Leonardo Lessa, do Galpão Cine Horto e do grupo Teatro Invertido, contou que, lá em Belo Horizonte, o Festival de Cenas Curtas chegou a radicalizar pondo um relógio vistoso, suspenso no palco, para que os desavisados não avançassem além da conta.

Resultou, portanto, uma longa jornada de aprendizado com os saberes dos Chicos, do Walter Lima Torres, da Cinthia Kunifas, dos coletivos participantes e suas pulsações de amador, no melhor sentido, que muitas vezes falta a alguns profissionais. E, por fim, dos saberes de toda a equipe da CiaSenhas empenhada a dar a cara a bater, porque só ela sabe a dor e a delícia de levar esse projeto adiante - e receber carinho, pois também somos feitos de afeto.

Acompanho a CiaSenhas desde Devorateme, em 2002, e é arejador vislumbrar o seu avanço e o dos seus pares na produção teatral da cidade, a autonomia de vôo e de risco. É isso que possibilita articulações como a do recém-nascido Movimento de Teatro de Grupo de Curitiba, ainda engatinhando, mas com potencial para vingar e dizer a que veio.

Não pude ir a todas, mas as rodas de debate das quais participei, na sede da companhia, foram igualmente proveitosas diante da generosidade de todos em exercer a arte da escuta, de regar a crítica e a autocrítica sem que se desqualifique o outro.

Dessa convergência dos diferentes, talvez a discussão fosse mais frutífera se acolhesse apenas dois debatedores por vez. A experiência intui que, na terceira voz, o rendimento é menor ou redunda aquilo que os demais colegas já comentaram. No caso de um duo, contudo, o impacto da terceira visão caberia aos presentes, artistas e público em geral. A roda seria mais estimulada a falar, vislumbraria espaço para cair dentro e ampliar os pontos de vistas.

De minha parte, vindo de 16 anos de escrita em jornal diário, e sempre com a sensação de que ainda estou tateando a crítica, o exercício do blog me fez derrubar um pouco a máscara da dita objetividade jornalística para posicionar-me mais como um mero espectador, um ser privilegiado e instigado a deitar algumas palavras e firmar um encontro de idéias com os artistas e os demais interlocutores.

Antes da despedida, divido uma confissão pública. Um pedido de desculpas ao Chico Medeiros. Anos atrás, endossei o termo pejorativo “mico” a uma das suas criações, nada mais, nada menos que um Hamlet. Foi num balanço de ano para o Guia da Folha, no jornal Folha de S.Paulo. Olhando do hoje, percebo o quanto este repórter pensava pequeno e sucumbiu à ligeireza do ofício que, por vezes, passa feito trator sobre processos artísticos que são mais complexos e sustentáveis do que imaginamos entre as quatro paredes da redação.

É isso. Saudações teatrais a todos. E aquele abraço!

Valmir Santos

os reclames

foto: Elenize Desgeniski
Os estudantes de artes cênicas Larissa Lima e Fernando Perri (Ringo) varreram o silêncio e o vazio pós-cenas


A dupla Larissa Lima e Fernando Perri, leia-se Ringo, comandou os entreatos nas cinco noites de apresentações dentro da IV Mostra Cena Breve Curitiba - A Linguagem dos Grupos de Teatro. O intervalo, ou o "reclame", como se dizia antigamente, numa referência televisiva ou radiofônica, duraram em média dez minutos. Esse recurso de "entreter" soa contraditório à proposta do encontro, seu pendor para a reflexão. Mal terminava uma cena, e lá vinha o "bingo", a "corrida", a "disputa", uma dispersão automática que emperrava a fruição daquilo que acabamos de ver/receber no palco ou na área externa ao teatro. Larissa e Ringo são carismáticos, ok. Mas a fixação dos organizadores em "preencher" o tempo conspira contra as descobertas que poderiam advir do silêncio, do vazio ou do coxixo com o vizinho da poltrona sobre o que se testemunhou.

Rua!

foto: Elenize Dezgeniski
O ator e diretor Chico Pelúcio, co-fundador do grupo Galpão (MG), fala sobre O trabalho em grupo e seus desdobramentos na comunidade


O bate-papo com o ator e diretor Chico Pelúcio, sob o guarda-chuva d'O trabalho em grupo e seus desdobramentos na comunidade, transformou-se numa arena para os artistas locais trocarem impressões sobre a relação do teatro com o espaço público em Curitiba. Após a apresentação da cena conterrânea do convidado, Av. Pindorama, 171, do Teatro 171, a platéia permaneceu e desembuchou. A certa altura, o co-fundador do grupo mineiro Galpão, lá se vão 26 anos, ficou em segundo plano, sentado em uma cadeira na boca de cena, enquanto a discussão seguia acalorada.

“Se eu me apresentar na rua, tenho medo de ser preso pela Guarda Municipal”, disse um espectador. “A rua curitibana virou uma trincheira entre comerciantes. A XV de Novembro [a Rua das Flores, calçadão central] é um corredor polonês, só comerciante de um lado e de outro disputando os clientes”, disse outro participante. “O pessoal de teatro deveria ser mais aguerrido, exigir mais, desenhar na prancheta e ir atrás”, criticou um terceiro. “É preciso ter consciência histórica do teatro de rua”, disse um ator.

Chico Pelúcio ponderou que a crise é, de certa forma, generalizada. O teatro de rua recuou em suas atividades em várias praças do país. São muitos os fatores, mas, do ponto de vista do artista, ele defende arregaçar as mandas e fazer – se essa for a vocação de um coletivo. “É preciso ser propositivo e criar conexões”, disse. Citou a própria trajetória do Galpão, cuja gênese está na ocupação de ruas e praças de Belo Horizonte. Anunciou que, após dez anos, o próximo espetáculo do grupo, em 2009, marcará justamente o retorno ao ar livre.

O diretor criticou o que chama de “apologia ao teatro social, um erro, uma onda que ainda bem que está passando”. Disse que “não cabe a nós acabar com a violência, cabe a nós fazer nossa arte para o cidadão”. Fez uma defesa apaixonada dos processos criativos em grupo, do empenho colaborativo, da necessidade de se ter uma casa, uma sede, e de as experiências vingarem na forma de um espetáculo.

Fez pontes com o Movimento Teatro de Grupo de Minas Gerais, na década de 1990 e na ativa, e com o Redemoinho – Movimento Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral, nascido em 2004 no Galpão Cine Horto, um antigo cinema localizado na mesma rua da sede do grupo na zona leste da capital mineira.

“É preciso buscar diálogo com quem dá espaço para o diálogo”, disse Chico Pelúcio, sobre a estratégia de relacionamento com as secretarias e fundações públicas mais afeitas a uma política cultural de fato. E se disse bem impressionado em conhecer a versão curitibana do Festival de Cenas Curtas que o Galpão Cine Horto lançou em 2000. Saiu torcendo para que a discussão sobre o teatro de rua indique, por si só, que há, sim, espaço para essa manifestação artística nas ruas da cidade e no coração dos artistas que a ela se disponham.

Amarelo banana



fotos: Elenize Dezgeniski
Cena de Av. Pindorama, 171, criação coletiva do Teatro 171, de Belo Horizonte


Coube a um trabalho mineiro o encerramento da Mostra na noite de segunda-feira. Av. Pindorama, 171 foi um dos selecionados este ano para o Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, em Belo Horizonte. O projeto vai para a décima edição em 2009 e, como não poderia deixar de ser, influenciou o formato da Mostra Cena Breve Curitiba idealizada pela CiaSenhas.

O espírito da carnavalização baixou no palco da Caixa Cultural com os “netos da Tropicália” que combinaram, entre outros tons e cores, deboche e crítica social sem cair no discurso. A partir do que se entende por um retrato local, a dramaturgia coletiva e a direção de Henrique Limadre promovem um vôo rasante sobre as periferias metropolitanas do Brasil, tão próximas e tão longes do sistema de moer gente que são os tempos financistas que correm.

Uma estética pobre atravessa figurinos e adereços hiperbólicos, como a espelhar os clichês do que é revestido como popular na cultura brasileira - palavras-chave que por si só dariam o que falar da proposta. Estão lá o camelô, o entregador de pizza, o caminhoneiro e outros tipos. Também há referências aos veículos de comunicação de massa. Mas foge-se do plano das idéias, tão-somente. Imprimi-se musicalidade, bom humor com um quê de Adrubal Trouxe o Trombone, o grupo carioca dos irreverentes anos 70. Aqui, o desbunde não engole a si mesmo, transcende, não disfarça contundência.

O mais instigante é acompanhar como em paralelo ao aparente caos de “subcenas” transcorre a narração de uma tragédia, um atropelamento que abala o pedaço. Certa noção de comunidade é posta em relevo: a capacidade de parodiar desgraças, de perseverar diante das dificuldades, de mobilizar-se quando o calo aperta. Misturam-se também planos da ficção com o que intuímos ser depoimentos pessoais pelos intérpretes-criadores.

Contudo, há uma derrapagem nessa experiência: quando um morador de rua aparece na cena final para colhe bananas espalhadas no asfalto por conta do referido acidente. É uma introdução brevíssima de um não-ator incorporado ao projeto, como a dizer que o real invadiu de fato a cena. O problema é que a concessão põe por água toda a plataforma artística erguida até ali para dar um recado com muita criatividade e fundamento.

O público não sabia que esse integrante era um morador de rua de fato na capital mineira. E por que uma participação de segundos? Proporcional à sua “invisibilidade” social ou reafirmação da mesma por meio do teatro, o que é mais gritante? A passagem lembra situação parecida sobre a qual discorremos no projeto da Companhia Silenciosa. Fica no ar: qual o limite dessa “incorporação”, se é que podemos pensar assim.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Terrir


fotos: Luana Navarro
Cena de O beijo no meio da noite, fragmento apresentado pela Vigor Mortis, de Curitiba


É raro deparar com pesquisa cênica defendida com consistência e continuidade como o faz a Vigor Mortis, a temida companhia de Curitiba - com o perdão do trocadilho para com seus artistas que, faz 11 anos, dedicam-se a temas relacionados à violência e ao horror, como vimos nas montagens de Morgue story - O filme, Graphic e Hitchcock blonde. A estilização alcança patamares cada vez mais expressivos no jeito de contar e ilustrar histórias com a inclinação recente para o Grand Guignol, o gênero que irradiou da Paris do início do século XX e é refletido em O beijo no meio da noite, que encerrou o painel de cenas da Mostra no domingo - o encontro terminou de fato na noite seguinte, dia 10.


Diretor e co-fundador da companhia, Paulo Biscaia Filho é um estudioso e um entusiasta do gênero suspense e suas possibilidades co-irmãs do cinema, fonte primordial nos projetos. O quadro oriundo da obra do francês Maurice Level (1875-1937) antagoniza um homem e uma mulher em sede de vingança regada a ácido sulfúrico como pretexto de um estranho amor.

Eficiente no quesito ambientação (elementos de luz, som e cenografia "claustrofóbicos"), o trabalho deixa a desejar na interpretação, sempre um risco de incorrer em exageros quando os contornos dramáticos podem trilhar outras dinâmicas. Isso era mais bem solucionado em Graphic.

No fragmento a que assistimos, ficou patente o desequilíbrio na voz – ferramenta seminal na linguagem perseguida - dos papéis do homem e da enfermeira, respectivamente Wagner Corrêa e Rafaella Marques, se comparados à freira de Sheylli Caleffi e à mulher “fatal” de Michelle Pucci. O enunciar artificioso destoou do que é naturalmente arquetípico no gênero, diluindo o poder de convencimento. Uma equação entre a imagem e a palavra com a qual Paulo lida desde quando despertou para o tipo de investigação que, como o filme B, tem sua razão artística de ser.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Claro enigma

fotos: Luana Navarro
Cenas de Sobre reparações necessárias, investigação da Obragem Teatro e Companhia, de Curitiba


Nada maior ou menor que um toque, dizia o bordão de uma finada revista da editora Brasiliense, nos anos 80. Das letras para a pele, Sobre reparações necessárias intenta decalcar do corpo marcas de resignação e perversão humanas. Desdobra-se a missão de, nelas, entre elas, iluminar o paradoxo da resiliência, a tal da propriedade física que converte a deformação ao que antes lhe fora essência. Essa vereda da curitibana Obragem Teatro e Companhia é percorrida não sem poucos estranhamentos que, na recepção, geram ruídos e fluídos bons.

É pesquisa de poucas concessões, vide o esmero artístico, porém seus criadores não economizam afeto em traduzir certos desvios da afetividade, ou ausência desta, na vida como ela está. Divisamos seres entre a carne e o verbo, a memória e o apagador, a visão e a cegueira, tudo nem tão gangorra assim nos duos e trios revezados por Eduardo Giacomini, Fernando de Proença e Ronie Rodrigues. Camisetas, calças jeans, indicam predisposição à informalidade cotidiana limpas de mimese ou virtuose, pois que afeto e afetação se excluem.

Servindo-se de recursos do naturalismo, o experimento “diz” isso com uma escrita de gestos e movimentos desprovidos de aporte cenográfico. O plano de luz beira o geral, mas é suavidade que rima profundidade no corredor em cruz: fundo, boca-de-cena e laterais. Às vezes, um dos atores-dançarinos atravessa o horizonte do olhar do espectador. Igual caminho é o da incorporação do depoimento pessoal de um dos intérpretes que avança em memórias-alicerces.

A expressão não-dramática de sua fala é desviada para um vasculhar de imagens. O público é convidado a entrar na casa dos avós do rapaz, redivivos por meio do solilóquio de cômodos e paredes feito os órgãos, um coração que pesa, um cérebro que perpassa. O que fazer daquilo que fomos? O que fazer daquilo que não fomos? São questões que dançam no que somos, tratores ensimesmados e pássaros longe do ninho - e dentro da gaiola do mundo percebido pela equipe da diretora Olga Nenevê.

Fala

fotos: Luana Navarro
Cena de Na verdade não era o sinal de vai tomar no cu, da fusão Os Iconoclastinhas/Companhia Provisória


O cenário é minimalístico e tem a ver com a forma como essa história é narrada, Na verdade não era o sinal de vai tomar no cu. Três banquinhos, três moças, três figurinos roxos e tons de luz, idem. Imóveis em suas posturas, sentadas, em pé somente em raros instantes, elas fazem o espectador mergulhar num fluxo que puxa para cá, puxa para lá e atualiza um pouco o espírito das transmissões radiofônicas de outrora em que o ouvinte, ou o grupo de ouvintes, deixa-se levar pela voz.

Mas estamos no teatro, o edifício com a platéia frontal. A joint-venture Os Iconoclastinhas/Companhia Provisória experimenta parâmetros da fala, e de como se fala, em detrimento de outras concorrências cênicas, salvo pontualidades coreográficas brevíssimas. A aposta de Nina Rosa Sá, a diretora, é escoar solto o pingue-pongue dessas mulheres de línguas e pensamentos afiados na dramaturgia de Luiz Felipe Leprevost. O autor roça oposição a Play, de Beckett, e suas três cabeças falantes, céleres e semi-enterradas em urnas. Aqui, a luz escancara; lá, na dramaturgia do irlandês, o breu é guiado por uma luz fulminante.

Resta ao conjunto das intérpretes, porém, mais fôlego, no melhor sentido, para sustentar suas Kel, Ili e Inha, nomes cuja pronúncia faz a língua ir aos dentes, aos céus da boca, em busca do por onde. Uma das atrizes, a do meio, Ciliane Vendruscolo, é mais desenvolta, alarga o labirinto da narração para que o espectador vá consigo nas desventuras de uma certa U, a mulher que atravessa a cidade dentro de um ônibus, uma saga bem-humorada à base do diz-que-diz sobre a desgraça alheia. As vizinhas de banquinho, Ana Ferreira e Kelly Eshima, que ora retrucam ora endossam, desequilibram na projeção de voz, na cor da palavra, no timming da respiração que certos momentos do relato pedem.

Mas fato é que essa história viciosa em seu afirma-e-nega tem tudo para desenvolver-se em todos os planos que sinaliza, está dito.