sábado, 21 de novembro de 2009
Burlescas Boogie-Woogie - Companhia Silenciosa
A ideia apresentada ao espectador na sinopse de "Burlescas Boogie-Woogie" aponta para a problematização e a relativização de alguns tópicos, mas o que se pode ver em cena é um bloco único, uma amostragem da noite clubber ou de uma estética do travestimento. Os atores parecem muito colados, muito aderidos ao que mostram, de uma forma que não abre fissuras para a relativização nem para a problematização. Em cena, não há contrastes: as três partes apresentadas ilustram um mesmo universo e a mesma abordagem deste universo.
A relação que fica visível entre os artistas e o que está sendo mostrado é a do fetiche. Não há como vislumbrar um atravessamento, um olhar artístico, uma atitude crítica para com o universo retratado. O que se vê é apenas um retrato. O flerte com a performance, por exemplo, não aparece. É claro que por “performance” pode-se entender muitas coisas, mas o que parece ser muito marcante na performance é a presença exposta do sujeito artista, do discurso – mesmo que visual – do artista. No trabalho apresentado pela Companhia Silenciosa, os sujeitos estão escondidos, protegidos atrás de uma série de artifícios de espetacularidade. Os artistas estão calados, mesmo quando cantam ou gritam no microfone. O que eles têm a dizer sobre o que estão mostrando não é perceptível.
Se, no contexto original das cenas, essa ideia de problematização, de relativização, acontece, vale observar que na transposição para o palco, isso ficou perdido. Mas não é novidade que o contexto de apresentação interfere diretamente na obra. Por isso, é difícil imaginar que isso simplesmente não tenha sido levado em consideração, o que leva a pensar que talvez a problematização não exista nem mesmo no contexto original.
Por Daniele Avila
Coração de congelador - Súbita Companhia de Teatro
A Súbita Companhia de Teatro apresenta, com “Coração de congelador”, uma cena criada especialmente para a Mostra. Com isso, aparece naturalmente uma noção de dramaturgia diferente do que nas cenas em processo ou nas cenas que foram recortadas de espetáculos prontos. Para falar sobre a interseção entre a dor e o amor, o grupo apresenta uma espécie de prólogo, duas cenas de dois casais com dinâmicas de relação equivalentes e uma cena com os quatro atores que oferece um movimento crescente até a finalização.
O prólogo é bastante rígido e revela, como na cena da Cia de Alguém, o gosto pelos procedimentos internos do trabalho do ator. O esgarçamento de uma ou duas frases e a fragmentação desse pequeno texto em quatro vozes parece autorreferente a ponto de não convidar o espectador a entrar no jogo. As cenas seguintes são mais sedutoras, têm traços ora comoventes ora cômicos, embora ingênuas na sua forma. Acredito que isso se deva também ao fato de que entra em cena o tema do amor. Mas a relação com o tema e com a dinâmica de relação entre os dois casais fica um tanto expositiva e, no lugar do encontro do amor com a dor, o que vemos é o encontro do amor com a ansiedade. Essa ansiedade entra em cena de maneira um tanto literal. Na cena do casal que permanece parado no mesmo lugar e tem gestos mais lentos, é possível ver uma tensão corporal e uma intensidade na expressão do rosto que acabam por sobrepor o “estar em cena” ao “fazer a cena”. Na cena do casal que leva a cabo a proposta de fazer uma cena muito intensa da maneira oposta, se movimentando sem parar e falando rápido, a exposição da ansiedade também fica bastante evidente.
A intensidade no comportamento físico do elenco, além de trazer à tona a imprecisão do instrumental de cada um, provoca uma saturação precoce na cena. É como se o espectador fosse bombardeado de signos, como se o corpo de cada ator estivesse se esforçando para preencher toda a visualidade do palco. Mas nem o amor nem a dor são tão expansivos – eles têm até mesmo a sua cota de retração, de interiorização, o que não aparece nesta apresentação da Súbita Companhia.
Na última cena, o grupo parece, num primeiro momento, ter se distanciado ainda mais da proposta temática, da relação entre o amor e a dor, mas, por outro lado, fica a impressão de que entra em cena um novo componente que se relaciona diretamente com a dor de amor: o tempo. O tempo parece ser o protagonista dessa última cena. Nela, os sujeitos são praticamente atropelados pelo cotidiano, pela velocidade em que a vida corre. Uma música dá a dinâmica da cena: a letra descreve situações, mencionando objetos. Os objetos vão entrando em cena, passando de mão em mão. Apesar da dinâmica da cena investir radicalmente na repetição e correr o risco de se esgotar logo, o conjunto da realização é tão singelo que a cena ganha sentido.
A repetição não é, nesta cena, uma exposição de um procedimento interno ou uma formalização postiça. Ela tem significado, oferece ao espectador algumas possibilidades de fruição. É possível pensar que os objetos, apesar de nomeados e reapresentados visualmente, exercem uma ação sobre os sujeitos, a ação do tempo. E, na preocupação de dar conta de lidar com tantas ações físicas concretas num ritmo imposto pela música, os atores param de fazer força para estar em cena e, quase por acidente, a presença de cada um acontece. É neste momento que aparecem os primeiros traços da autenticidade do grupo e, ao mesmo tempo, se estabelece uma distância radical das premissas que estavam em jogo na cena inicial.
Por Daniele Avila
Foto: Elenize Dezgeniski
E ela abriu os olhos debaixo d'água - Cia de Alguém
Pra começar
Antes de dar início aos trabalhos nesta V Mostra Cena Breve Curitiba, talvez seja importante traçar alguns aspectos dos pontos de vista a partir dos quais as cenas podem ser abordadas neste blog. Digo “pontos de vista” – no plural – porque são múltiplas as possibilidades de reflexão sobre as cenas, são diversos os lugares (do pensamento, da percepção) despertados por cada cena. No entanto, um lugar é condição necessária: o de estrangeira. É como estrangeira que chego a Curitiba, a convite da Cia Senhas, e presencio trabalhos de grupos cuja trajetória não tive oportunidade de acompanhar e cujo contexto de criação e produção não conheço. Tudo o que posso saber de cada cena e de cada grupo está ali: em cena.
Partindo dessa premissa, abre-se o leque. Cada cena puxa uma carta. Além disso, cada grupo de cenas (dividas em três a cada noite) estabelece um horizonte comum, o que acontece quase forçosamente pela convivência no espaço e no tempo de cada apresentação. Sem contar com o fato de que, ao final de cinco dias, forma-se uma espécie de panorama, e as impressões deixadas por cada peça individualmente acabam por se embaralhar. Por mais diferentes que sejam, estão todas – pelo menos temporariamente – no mesmo barco. Nesse sentido, é preciso levar em consideração que quem assiste acaba sendo atravessado pela mistura. A análise de cada cena isoladamente, portanto, é apenas um critério de organização. Vale lembrar que a crítica da cena do outro é quase sempre a crítica de um momento, um prisma ou um recorte do processo de criação artística pelo qual todo mundo passa, independentemente do tempo de experiência ou dos pressupostos com que cada grupo trabalha. As questões estéticas levantadas por um grupo vão refletir na cena do outro.
Antes de começar o jogo, é costume que se embaralhe as cartas. Aproveitemos, então, esse embaralhamento saudável que a convivência propõe.
Daniele Avilasábado, 15 de novembro de 2008
Da longa jornada

fotos: Elenize DezgeniskiNo alto, os artistas da CiaSenhas, idealizadora da Mostra; acima, uma das rodas de debate que refletiram sobre as cenas apresentadas na noite anterior
Permitiu-me ainda a proximidade com o universo das chamadas cenas curtas, dos 15 minutos de teto a que muitas produções simplesmente ignoraram. Aliás, o Leonardo Lessa, do Galpão Cine Horto e do grupo Teatro Invertido, contou que, lá
Resultou, portanto, uma longa jornada de aprendizado com os saberes dos Chicos, do Walter Lima Torres, da Cinthia Kunifas, dos coletivos participantes e suas pulsações de amador, no melhor sentido, que muitas vezes falta a alguns profissionais. E, por fim, dos saberes de toda a equipe da CiaSenhas empenhada a dar a cara a bater, porque só ela sabe a dor e a delícia de levar esse projeto adiante - e receber carinho, pois também somos feitos de afeto.
Acompanho a CiaSenhas desde Devorateme, em 2002, e é arejador vislumbrar o seu avanço e o dos seus pares na produção teatral da cidade, a autonomia de vôo e de risco. É isso que possibilita articulações como a do recém-nascido Movimento de Teatro de Grupo de Curitiba, ainda engatinhando, mas com potencial para vingar e dizer a que veio.
Não pude ir a todas, mas as rodas de debate das quais participei, na sede da companhia, foram igualmente proveitosas diante da generosidade de todos em exercer a arte da escuta, de regar a crítica e a autocrítica sem que se desqualifique o outro.
Dessa convergência dos diferentes, talvez a discussão fosse mais frutífera se acolhesse apenas dois debatedores por vez. A experiência intui que, na terceira voz, o rendimento é menor ou redunda aquilo que os demais colegas já comentaram. No caso de um duo, contudo, o impacto da terceira visão caberia aos presentes, artistas e público em geral. A roda seria mais estimulada a falar, vislumbraria espaço para cair dentro e ampliar os pontos de vistas.
De minha parte, vindo de 16 anos de escrita em jornal diário, e sempre com a sensação de que ainda estou tateando a crítica, o exercício do blog me fez derrubar um pouco a máscara da dita objetividade jornalística para posicionar-me mais como um mero espectador, um ser privilegiado e instigado a deitar algumas palavras e firmar um encontro de idéias com os artistas e os demais interlocutores.
Antes da despedida, divido uma confissão pública. Um pedido de desculpas ao Chico Medeiros. Anos atrás, endossei o termo pejorativo “mico” a uma das suas criações, nada mais, nada menos que um Hamlet. Foi num balanço de ano para o Guia da Folha, no jornal Folha de S.Paulo. Olhando do hoje, percebo o quanto este repórter pensava pequeno e sucumbiu à ligeireza do ofício que, por vezes, passa feito trator sobre processos artísticos que são mais complexos e sustentáveis do que imaginamos entre as quatro paredes da redação.
É isso. Saudações teatrais a todos. E aquele abraço!
Valmir Santos
os reclames
Os estudantes de artes cênicas Larissa Lima e Fernando Perri (Ringo) varreram o silêncio e o vazio pós-cenas
A dupla Larissa Lima e Fernando Perri, leia-se Ringo, comandou os entreatos nas cinco noites de apresentações dentro da IV Mostra Cena Breve Curitiba - A Linguagem dos Grupos de Teatro. O intervalo, ou o "reclame", como se dizia antigamente, numa referência televisiva ou radiofônica, duraram em média dez minutos. Esse recurso de "entreter" soa contraditório à proposta do encontro, seu pendor para a reflexão. Mal terminava uma cena, e lá vinha o "bingo", a "corrida", a "disputa", uma dispersão automática que emperrava a fruição daquilo que acabamos de ver/receber no palco ou na área externa ao teatro. Larissa e Ringo são carismáticos, ok. Mas a fixação dos organizadores em "preencher" o tempo conspira contra as descobertas que poderiam advir do silêncio, do vazio ou do coxixo com o vizinho da poltrona sobre o que se testemunhou.
Rua!
foto: Elenize DezgeniskiO ator e diretor Chico Pelúcio, co-fundador do grupo Galpão (MG), fala sobre O trabalho em grupo e seus desdobramentos na comunidade
O bate-papo com o ator e diretor Chico Pelúcio, sob o guarda-chuva d'O trabalho em grupo e seus desdobramentos na comunidade, transformou-se numa arena para os artistas locais trocarem impressões sobre a relação do teatro com o espaço público
“Se eu me apresentar na rua, tenho medo de ser preso pela Guarda Municipal”, disse um espectador. “A rua curitibana virou uma trincheira entre comerciantes. A XV de Novembro [a Rua das Flores, calçadão central] é um corredor polonês, só comerciante de um lado e de outro disputando os clientes”, disse outro participante. “O pessoal de teatro deveria ser mais aguerrido, exigir mais, desenhar na prancheta e ir atrás”, criticou um terceiro. “É preciso ter consciência histórica do teatro de rua”, disse um ator.
Chico Pelúcio ponderou que a crise é, de certa forma, generalizada. O teatro de rua recuou em suas atividades em várias praças do país. São muitos os fatores, mas, do ponto de vista do artista, ele defende arregaçar as mandas e fazer – se essa for a vocação de um coletivo. “É preciso ser propositivo e criar conexões”, disse. Citou a própria trajetória do Galpão, cuja gênese está na ocupação de ruas e praças de Belo Horizonte. Anunciou que, após dez anos, o próximo espetáculo do grupo, em 2009, marcará justamente o retorno ao ar livre.
O diretor criticou o que chama de “apologia ao teatro social, um erro, uma onda que ainda bem que está passando”. Disse que “não cabe a nós acabar com a violência, cabe a nós fazer nossa arte para o cidadão”. Fez uma defesa apaixonada dos processos criativos em grupo, do empenho colaborativo, da necessidade de se ter uma casa, uma sede, e de as experiências vingarem na forma de um espetáculo.
Fez pontes com o Movimento Teatro de Grupo de Minas Gerais, na década de 1990 e na ativa, e com o Redemoinho – Movimento Brasileiro de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral, nascido em 2004 no Galpão Cine Horto, um antigo cinema localizado na mesma rua da sede do grupo na zona leste da capital mineira.
“É preciso buscar diálogo com quem dá espaço para o diálogo”, disse Chico Pelúcio, sobre a estratégia de relacionamento com as secretarias e fundações públicas mais afeitas a uma política cultural de fato. E se disse bem impressionado em conhecer a versão curitibana do Festival de Cenas Curtas que o Galpão Cine Horto lançou em 2000. Saiu torcendo para que a discussão sobre o teatro de rua indique, por si só, que há, sim, espaço para essa manifestação artística nas ruas da cidade e no coração dos artistas que a ela se disponham.