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Mostrando postagens de 2017

Zona erógena e cócegas

Em “Romeu e Julieta”, o frei Lourenço afirma que “Esses prazeres violentos têm finais violentos/ E, em seu triunfo, morrem como o fogo e a pólvora./ Que se consomem quando se beijam”. Para além do fundo histórico e social da tragédia, a impossibilidade da consumação do amor juvenil em Shakespeare talvez nos diga mais sobre a sabotagem dos desejos na contemporaneidade. Um prolongado beijo entre personagens que se dizem irmãos, ele e ela, é um dos múltiplos ruídos propositalmente desestabilizadores em “La Belle Merde”, do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis. A objetividade científica da forma expositiva vem associada à apresentação de seminário ou conferência que aparenta se passar em sala de convenção ou sala de aula, ainda que sugira a neutralidade de um ambiente com uma cadeira e uma mesa discretas, além da luz invariável. Os atores Lara Matos, Lucas Heymanns e Marco Antonio Oliveira surgem alinhados à boca de cena. Têm atrás de si banners que exibem corpos nus …

Concha acústica

A estudante Alice, de 11 anos, sempre viu a arte da performance (e por extensão, das coirmãs dança e teatro) sob intempéries. O vento, o sol, a garoa e até possivelmente as nuvens já influenciaram sua maneira de relacionar-se com os artifícios da cena que os pais, a performer Luana Raiter e o diretor Pedro Bennaton, plantam em seus trabalhos criativos desde que ela se conhece por gente, quer na cidade aonde vive, Florianópolis, quer em circulação. “Essa fumaça é normal”, perguntou Alice na noite anterior, diante da propagação de gelo seco vindo do fundo do palco, sentada ao lado do jornalista na plateia do Teatro Zé Maria Santos. O lugar a partir de onde se vê, na perspectiva da definição milenar – eis o lugar recém-descoberto pela filha dos também dramaturgos do ERRO Grupo. Ele tem quatro anos a mais, 16, em relação à primogênita que esbanja curiosidade e inteligência imersa nos admiráveis mundos novos que encontrou durante aqueles dias e horas de presença na Mostra Cena Breve Curiti…

A camiseta que habito

A Companhia Transitória encampa um depoimento antiviolência contra a mulher em “Que Bom Que Você Entendeu Que Estou Tão Perdida Quanto Você”. Proposição tudo a ver com as letras de uma banda californiana que marcou a década de 1990 com pegadas punk e grunge, o Hole, influência confessa da diretora e dramaturga Nina Rosa Sá e cujas canções, em geral, versam sobre os malefícios da sociedade patriarcal, permissiva ao assédio, às agressões física e psicológica, à cultura do estupro. Questões de identidade, de sexualidade e de imagem corporal que aparecem, por exemplo, na letra de “Celebrity Skin” (pele de celebridade, 1998), interpretada pela vocalista e guitarrista Courtney Love. Há uma atitude independente e indignada na disposição e nas falas das atrizes Ludmila Nascarella, Clarissa Oliveira e Ana Larousse. Seus discursos afirmativos são unívocos (efeito colateral do tom monocórdio das vozes, diga-se). Elas se posicionam com propriedade e conhecimento de causa, por assim dizer. Enquant…

Desencanto vital

Nem a fascinação nem a resignação. “Essa é a nossa linguagem!”, alguém avisa. O caminho do meio expandido e forrado de aptidões possíveis. A ação cênica “Outros Sobreviventes”, do Coletivo Mamulengos de Mameluri, mergulha no vale dos vácuos desencantados e de lá processa a capacidade de resiliência em produzir transformação, moto-contínuo de quem lida com arte. Há um pendor cumulativo na capacidade gregária de atrair trabalhadores cênicos de outros grupos de Curitiba e fazer do palco o seu terreno baldio a ser ocupado por/de figuras estranhas, objetos de filiações as mais diversas (livros, sofás, galões, figurinos soltos, etc.). Não deixa de ser uma demarcação para libertar-se daquilo que te prende: o teatro. Sobretudo seu desenho físico gerador de expectativas amortecidas, ou assim alimentadas pela maioria conformista daqueles que o habitam provisoriamente, independente da natureza arquitetônica do espaço. Desse amontoado em desordem crescente migramos para outras percepções. Há uma …

Sem pena

A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do palco, o varal de asas de frango espetadas e a panela elétrica que assa nuggets no proscênio …

Desterrada

Numa tradução da antologia japonesa de escritos zen budista Zenrin-kushū, do século XVII, o poeta Haroldo de Campo erige, no espaço da página em branco, duas linhas paralelas e verticais nas quais se lê, em minúsculas: “a onda revela a essência da lua”; “a árvore desvela a substância do vento”. Pausa: pede-se reler com vagar. Essas imagens brotam da experiência de “Passio – 15’ Antes”, solo de Olga Nenevê, do Grupo Obragem de Teatro. O corpo nu de movimentos e ações enraizadas, maquiado com o pó da terra, dança coesão e ruptura no espaço vazio. É nesse oco que o elo ritualidade-ancestralidade confere equilíbrio ao vergar a coluna e ascender mãos aos céus, sob as injunções dos ossos, das posturas e da cosmovisão da artista. “É pessoal sim”, ela grita. “Sempre é pessoal”. A contagem regressiva para a experiência morte está na base da narrativa curta de paisagem sonora dolente, trilha composta por Edith Camargo. Os passos de Olga pesam como se caminhasse na aridez do deserto. O caso é qu…

Liquefeitos

A julgar pelo que se experimenta em “A Pequena Sereia”, a transposição de fábulas para a cena contemporânea é uma tarefa que a Setra Companhia de Teatro se dá com o devido senso de complexidade dessa operação. Não se vai ao conto de Andersen, de 1837, para fazer tábula rasa. Menos ainda quando a voga do sereismo, seja lá o que isso for, vira praga disseminada pela teledramaturgia que consegue embalar até a cauda dessa figura para vender. Dois movimentos conformam essa narrativa desconstruída para discutir questão de gênero, pelo menos a camada mais evidente. No primeiro, Janaína Matter e Marcel Szymanski compõem dueto para voz única, a da personagem-título. O olhar longo e circunspecto do ator rastreia a plateia de um ponto a outro, antes de soltar: “Eu sou a Pequena Sereia”. Ele senta e conta sobre o quanto desejava emergir à superfície e, quando assim o fez, encontrou um homem a quem salvou de um naufrágio, o deitou na areia e partiu, retornando à vida submarina. Logo a atriz senta …

Integridade

Calor na Bacurinha” apropria-se rigorosamente da nudez como dispositivo crítico. Afronta principalmente o tabu da genitália feminina disseminado por fundamentalismos religiosos e políticos ao longo da história. A experiência artística do autointitulado bando As Bacurinhas, de Belo Horizonte, se aproxima de uma guerrilha poética. A atitude desse coro de atrizes faria vibrar o autor do quadro "A Origem do Mundo", do pintor francês Gustave Courbet (1819-1877). É como se a figura feminina que tem retratados em primeiro plano o tronco, o órgão sexual e parte das coxas saltasse ao palco e interagisse com a plateia pelos corredores. O jogo de contravenção encarnada debocha por meio do gesto, do movimento e do discurso afiado. Contra-narrativas. As alusões chulas à vagina são respondidas com a mesma moeda de impropérios relativos ao pênis. A hegemônica pegada falocêntrica na espetacularização do funk também é cutucada sem juízo de valor sobre o ritmo e sua cultura. Por outro lado, …

Ação de despejo

No mundo vasto mundo da cena curta, dificilmente uma criação imprime um percurso que possa se inferir com começo, meio e fim. A elaboração dramática em “Pour Poor Andy”, do Grupo P.U.T.O., assume unidades temporais e espaciais e, dentro delas, comete deslocamentos de percepção que enriquecem o imaginário em torno da mulher que faz da sua casa e do seu corpo não-lugares. Ela admite o quanto é ruim não se reconhecer em seu próprio corpo, equivalente à atitude de trancar-se no banheiro em plena festa que acontece em sua casa. É um achado a síntese construída em torno do ser associal, capaz de incomodar-se com o ruído da própria presença. A excelência técnica da intérprete Juliane Souto, também ela dramaturga, cria um colchão de gênero musical na dobradinha de voz e teclado com o músico Álvaro Antonio. Um colchão rítmico, em todos os sentidos, para deitar a solidão e a clausura da personagem. O jazz se traduz nas partituras físicas e nos desenhos de luz e da cenografia. Nem a delimitação …

Ganas

Os protestos de junho de 2013 também despertaram o gigante da hibernação ágrafa. Um mar de reivindicações escritas em papeis sulfite e cartolina como que individualizaram a maneira de veicular as reivindicações que, ao cabo, dizem respeito à massa e cravam indignidade. Renata de Roel e Fernando Proença extraem desse ato público (de colocar a boca no trombone em letras garrafais ou cursivas) a sua dimensão íntima. “Irrefreável” faz da plateia o lugar inverso da representação. Cria um ambiente de afeto, antiespetacular. Os cartazes e as faixas que o ator e a bailarina trazem aos poucos para a beira do palco somam-se a outros papeis em branco nos quais o público é convidado a se expressar a bel-prazer. Canetas hidrográficas, corações recortados e o exercício de encontrar a melhor posição para escrever no chão e depois pendurar sua “arte” na cortina da sala deram – àqueles que se dispõem e àqueles que contemplam – uma passagem para as lembranças dos primeiros anos escolares, quando as noç…

Coação

Assim como o plástico bolha permite múltiplos formatos para proteger ou isolar, o imaginário de Copi corre solto e célere em seus escritos ou cartuns. “Loretta Strong” (1974) é exemplar dessa dramaturgia transgressora nas ideias e nas escolhas estéticas, grávida de entradas e saídas. Quando a atriz Leonarda Glück pisa as bolhinhas de ar prensadas que desprendem do figurino, vão ao chão e enroscam em seu bota, ela materializa os estalos gerados em nossa recepção. O texto é ponto de partida para a cena “Betelgeuse”, mesmo nome da estrela mais brilhantes da constelação de Órion, um dos refugos da cosmonauta Loretta. A figura está acuada diante da invasão de sua nave espacial, cujo oxigênio foi cortado. A falta de conexão com a Terra a deixa ainda mais desesperada. O planeta também foi pelos ares. Esse tom apocalíptico é apenas a ponta do iceberg. Ratos, morcegos, geladeiras e barras de ouro podem penetrar a vagina da protagonista sob repulsa, “refecundar” os monstros da direta moral, fil…

Espuma S/A

“Assembleia Geral” é uma ironia nada refinada. E esse despropósito está no cerne da crítica da Companhia EmCômodo Teatral aos artifícios vigentes nas práticas e discursos que versam sobre a atividade da cultura nos últimos anos. Como a disseminação de que artista é vagabundo, quando o dever do Estado para com essa área é historicamente miserável. Há um dentro e um fora nesse recorte oportuno concebido, escrito e dirigido por Fabio Kinas. Afinal, respinga autocrítica nos artistas como ele. Além de cutucar a sociedade, espelho dos modos de produzir, pensar, agir. Nesse simulacro de TED, de case de marketing, de plataforma de startup, de verniz para lançamento de empresa ou o que valha, pois tudo é possível na voga da economia criativa, a figura de linguagem escorregadiça beira a náusea com as perguntas dissimuladas para uma plateia claramente manipulada e que se submete em vez de contrariar tais procedimentos. Com pitadas de intervenção e performance instauradas a partir da dissimulação…

Pachamama

Por mais contundente a condição da mulher relatada em “Para Não Morrer”, com seu corpo tensionado, a boca distorcida, a gestualidade contida, a postura ereta sentada numa poltrona cenográfica, a imagem engendrada pela presença de Nena Inoue produz uma força ambivalente de sabedoria que a aproxima da Pachamama. Na língua quéchua, “pacha” equivale a universo, a lugar, a tempo, enquanto “mama”, pressuposto, alude à mãe. Essa Mãe Terra é considerada uma divindade andina pelo que encerra de fertilidade e feminino. O tecido estampado do sofá funde-se ao figurino e aos adereços da atriz de cabelos esvoaçados, delineando a imagem triangular de uma montanha. Jarros d’água mimetizam a ilha ao redor. Aqui a natureza brota em sua raiz, despida da plasticidade oca do comercial de cosmético. A voz que está com uma mulher engasgada na garganta bebe dos escritos curtos de Eduardo Galeano (1940-2015). O tratamento dramatúrgico de Francisco Mallmann dá corpo ao coro de lutadoras contra a opressão, sobr…

Supersônica

A performer Patrícia Teles carrega na cachola uma nuvem de informações. Por onde passa o seu protótipo de capacete com luzinhas piscantes equivale a uma parabólica de pensamentos supersônicos. Ela processa fala e presença com senso aguçado de observação do mundo e muita graciosidade, sem se fazer de. O ar de stand-up comedy logo se dissipa e deixa fruir o papo reto com que disfarça muito bem a condição de enciclopédia ambulante na bacia de nonsense e dados factuais que superpõe arrancando nossos neurônios no frescor das sinapses. É capaz de juntar e disjuntar lé com crê ao emendar a morte de Santos Dumond com o ataque às Torres Gêmeas ou a chegada do homem à lua à queda do Muro de Berlim. Aos poucos, a maçaroca de “Olhei para Todos os Lados e Não Vi Deus” ganha corpo e a clareza passa a reger as ações lançadas, cumpridas e dissociadas em intervalos nos quais suspende a máscara, ops, o balde de plástico transparente que faz às vezes de proteção para a cabeça e engole um pouco sua voz. …

Obscenas é que não são elas

E tudo recomeça do avesso. No verso, na “bunda” do teatro. O som do sapateado – em crescendo – detrás dos portões que dão acesso ao palco para carga e descarta de material. Ouvimos o sol sob os sapatos flamencos. A imaginação vai longe. Suspense. O que vem são quatro ciganas de pernas abertas e de peito aberto para tourear o machismo explícito e secular das sociedades, não importa a topografia. Na Antiguidade, assassinatos e batalhas sangrentas eram chamados obscenos por acontecerem fora do alcance da visão do público. Aqui, o espectador entra pelos fundos, permanece em pé, pode se agachar na clareira da cena no tablado ou avançar para os assentos da plateia propriamente dita, nos rearranjos e angulações possíveis para encontrar o campo de relação com a experiência. Em “Con la Carmen no Te Metas”, a Súbita Companhia de Teatro subverte o entendimento daquilo que está por trás do que está por trás. Escancara a obscenidade da violência contra a mulher, esse corpo-território disputado des…

Recomeço remoçado

A noite de ontem foi vitoriosa. Pôs fim aos quatro anos de intervalo financeiramente forçado. Quanto espírito jovem reunido por meio/em torno/através da Mostra Cena Breve Curitiba – a linguagem dos grupos de teatro. Gente pelo ladrão, pelas escadas da plateia do Teatro José Maria Santos, outrora emblematicamente Teatro da Classe, a dez pilas ou meia a entrada. Público em formação, uma maioria artista espectadora. Atenta aos inventos dos colegas da cidade ou vindos de Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina nesta nona edição. Parte relevante da produção paranaense do século XXI passa pelas artérias das cenas curtas nutridas de 2005 a 2012 e ora retomadas. O sistema dialógico da mostra, convencionado pelo tempo, os presumidos 15 minutos, deixa os criadores voarem soltos em suas poéticas, pensamentos e fazeres. Não poderia ser diferente, é verdade. A atitude feminina das criadoras e produtoras Marcia Moraes, Greice Barros e Sueli Araujo delineia os encontros com afeto, fe…