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Espuma S/A

Os púlpitos selvagens da EmCômodo } Elenize Dezgeniski

“Assembleia Geral” é uma ironia nada refinada. E esse despropósito está no cerne da crítica da Companhia EmCômodo Teatral aos artifícios vigentes nas práticas e discursos que versam sobre a atividade da cultura nos últimos anos. Como a disseminação de que artista é vagabundo, quando o dever do Estado para com essa área é historicamente miserável. Há um dentro e um fora nesse recorte oportuno concebido, escrito e dirigido por Fabio Kinas. Afinal, respinga autocrítica nos artistas como ele. Além de cutucar a sociedade, espelho dos modos de produzir, pensar, agir. Nesse simulacro de TED, de case de marketing, de plataforma de startup, de verniz para lançamento de empresa ou o que valha, pois tudo é possível na voga da economia criativa, a figura de linguagem escorregadiça beira a náusea com as perguntas dissimuladas para uma plateia claramente manipulada e que se submete em vez de contrariar tais procedimentos. Com pitadas de intervenção e performance instauradas a partir da dissimulação, a cena demora a dar o cavalo de pau nessa ladeira abaixo da corrosão moral. Haveria uma no encontro com o espectador? Acaba não escapando da arapuca de show de auditório que armou, visto que nossa formação televisiva também viralizou há décadas. A infecção corporativa é tamanha que a inventividade se esgota antes da guinada espetacular de espuma (ou de araque) nos segundos finais, sob os amparos de luz, púlpito, gelo seco, enfim, efeitos de dar inveja às representações audiovisuais do segmento pentecostal. A ironia revela-se um desvio de fato sedutor e movediço. As atrizes Camila Jorge, Pagu e Patricia Saravy e o próprio Fabio Kinas, em participações, vestem o figurino e a lábia com desenvoltura. (Valmir Santos)


Pagu (esq.) e Patricia Saravy em 'Assembleia Geral' } Elenize Dezgeniski




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