Pular para o conteúdo principal

Supersônica



A performer "bacana" Patrícia Teles } Elenize Dezgeniski

A performer Patrícia Teles carrega na cachola uma nuvem de informações. Por onde passa o seu protótipo de capacete com luzinhas piscantes equivale a uma parabólica de pensamentos supersônicos. Ela processa fala e presença com senso aguçado de observação do mundo e muita graciosidade, sem se fazer de. O ar de stand-up comedy logo se dissipa e deixa fruir o papo reto com que disfarça muito bem a condição de enciclopédia ambulante na bacia de nonsense e dados factuais que superpõe arrancando nossos neurônios no frescor das sinapses. É capaz de juntar e disjuntar lé com crê ao emendar a morte de Santos Dumond com o ataque às Torres Gêmeas ou a chegada do homem à lua à queda do Muro de Berlim. Aos poucos, a maçaroca de “Olhei para Todos os Lados e Não Vi Deus ganha corpo e a clareza passa a reger as ações lançadas, cumpridas e dissociadas em intervalos nos quais suspende a máscara, ops, o balde de plástico transparente que faz às vezes de proteção para a cabeça e engole um pouco sua voz. São janelas para chamar o público ao presente do presente que media. Tendo como colaboradora Sarah Marques, Patrícia Teles faz dessa “entidade” carioca Artista Bacana uma síncope do nosso tempo contínuo. Como se pudesse ser uma versão condensada, bem bolada e ao vivo do documentário “Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos” (1999), de Marcelo Masagão, que navegou o século XX em imagens. (Valmir Santos)

Uma das janelas de 'Olhei para todos os lados...' } Elenize Dezgeniski

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sem pena

A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do palco, o varal de asas de frango espetadas e a panela elétrica que assa nuggets no proscênio …

Ação de despejo

No mundo vasto mundo da cena curta, dificilmente uma criação imprime um percurso que possa se inferir com começo, meio e fim. A elaboração dramática em “Pour Poor Andy”, do Grupo P.U.T.O., assume unidades temporais e espaciais e, dentro delas, comete deslocamentos de percepção que enriquecem o imaginário em torno da mulher que faz da sua casa e do seu corpo não-lugares. Ela admite o quanto é ruim não se reconhecer em seu próprio corpo, equivalente à atitude de trancar-se no banheiro em plena festa que acontece em sua casa. É um achado a síntese construída em torno do ser associal, capaz de incomodar-se com o ruído da própria presença. A excelência técnica da intérprete Juliane Souto, também ela dramaturga, cria um colchão de gênero musical na dobradinha de voz e teclado com o músico Álvaro Antonio. Um colchão rítmico, em todos os sentidos, para deitar a solidão e a clausura da personagem. O jazz se traduz nas partituras físicas e nos desenhos de luz e da cenografia. Nem a delimitação …

Obscenas é que não são elas

E tudo recomeça do avesso. No verso, na “bunda” do teatro. O som do sapateado – em crescendo – detrás dos portões que dão acesso ao palco para carga e descarta de material. Ouvimos o sol sob os sapatos flamencos. A imaginação vai longe. Suspense. O que vem são quatro ciganas de pernas abertas e de peito aberto para tourear o machismo explícito e secular das sociedades, não importa a topografia. Na Antiguidade, assassinatos e batalhas sangrentas eram chamados obscenos por acontecerem fora do alcance da visão do público. Aqui, o espectador entra pelos fundos, permanece em pé, pode se agachar na clareira da cena no tablado ou avançar para os assentos da plateia propriamente dita, nos rearranjos e angulações possíveis para encontrar o campo de relação com a experiência. Em “Con la Carmen no Te Metas”, a Súbita Companhia de Teatro subverte o entendimento daquilo que está por trás do que está por trás. Escancara a obscenidade da violência contra a mulher, esse corpo-território disputado des…