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Mostrando postagens de Abril, 2017

Espuma S/A

“Assembleia Geral” é uma ironia nada refinada. E esse despropósito está no cerne da crítica da Companhia EmCômodo Teatral aos artifícios vigentes nas práticas e discursos que versam sobre a atividade da cultura nos últimos anos. Como a disseminação de que artista é vagabundo, quando o dever do Estado para com essa área é historicamente miserável. Há um dentro e um fora nesse recorte oportuno concebido, escrito e dirigido por Fabio Kinas. Afinal, respinga autocrítica nos artistas como ele. Além de cutucar a sociedade, espelho dos modos de produzir, pensar, agir. Nesse simulacro de TED, de case de marketing, de plataforma de startup, de verniz para lançamento de empresa ou o que valha, pois tudo é possível na voga da economia criativa, a figura de linguagem escorregadiça beira a náusea com as perguntas dissimuladas para uma plateia claramente manipulada e que se submete em vez de contrariar tais procedimentos. Com pitadas de intervenção e performance instauradas a partir da dissimulação…

Pachamama

Por mais contundente a condição da mulher relatada em “Para Não Morrer”, com seu corpo tensionado, a boca distorcida, a gestualidade contida, a postura ereta sentada numa poltrona cenográfica, a imagem engendrada pela presença de Nena Inoue produz uma força ambivalente de sabedoria que a aproxima da Pachamama. Na língua quéchua, “pacha” equivale a universo, a lugar, a tempo, enquanto “mama”, pressuposto, alude à mãe. Essa Mãe Terra é considerada uma divindade andina pelo que encerra de fertilidade e feminino. O tecido estampado do sofá funde-se ao figurino e aos adereços da atriz de cabelos esvoaçados, delineando a imagem triangular de uma montanha. Jarros d’água mimetizam a ilha ao redor. Aqui a natureza brota em sua raiz, despida da plasticidade oca do comercial de cosmético. A voz que está com uma mulher engasgada na garganta bebe dos escritos curtos de Eduardo Galeano (1940-2015). O tratamento dramatúrgico de Francisco Mallmann dá corpo ao coro de lutadoras contra a opressão, sobr…

Supersônica

A performer Patrícia Teles carrega na cachola uma nuvem de informações. Por onde passa o seu protótipo de capacete com luzinhas piscantes equivale a uma parabólica de pensamentos supersônicos. Ela processa fala e presença com senso aguçado de observação do mundo e muita graciosidade, sem se fazer de. O ar de stand-up comedy logo se dissipa e deixa fruir o papo reto com que disfarça muito bem a condição de enciclopédia ambulante na bacia de nonsense e dados factuais que superpõe arrancando nossos neurônios no frescor das sinapses. É capaz de juntar e disjuntar lé com crê ao emendar a morte de Santos Dumond com o ataque às Torres Gêmeas ou a chegada do homem à lua à queda do Muro de Berlim. Aos poucos, a maçaroca de “Olhei para Todos os Lados e Não Vi Deus” ganha corpo e a clareza passa a reger as ações lançadas, cumpridas e dissociadas em intervalos nos quais suspende a máscara, ops, o balde de plástico transparente que faz às vezes de proteção para a cabeça e engole um pouco sua voz. …

Obscenas é que não são elas

E tudo recomeça do avesso. No verso, na “bunda” do teatro. O som do sapateado – em crescendo – detrás dos portões que dão acesso ao palco para carga e descarta de material. Ouvimos o sol sob os sapatos flamencos. A imaginação vai longe. Suspense. O que vem são quatro ciganas de pernas abertas e de peito aberto para tourear o machismo explícito e secular das sociedades, não importa a topografia. Na Antiguidade, assassinatos e batalhas sangrentas eram chamados obscenos por acontecerem fora do alcance da visão do público. Aqui, o espectador entra pelos fundos, permanece em pé, pode se agachar na clareira da cena no tablado ou avançar para os assentos da plateia propriamente dita, nos rearranjos e angulações possíveis para encontrar o campo de relação com a experiência. Em “Con la Carmen no Te Metas”, a Súbita Companhia de Teatro subverte o entendimento daquilo que está por trás do que está por trás. Escancara a obscenidade da violência contra a mulher, esse corpo-território disputado des…

Recomeço remoçado

A noite de ontem foi vitoriosa. Pôs fim aos quatro anos de intervalo financeiramente forçado. Quanto espírito jovem reunido por meio/em torno/através da Mostra Cena Breve Curitiba – a linguagem dos grupos de teatro. Gente pelo ladrão, pelas escadas da plateia do Teatro José Maria Santos, outrora emblematicamente Teatro da Classe, a dez pilas ou meia a entrada. Público em formação, uma maioria artista espectadora. Atenta aos inventos dos colegas da cidade ou vindos de Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina nesta nona edição. Parte relevante da produção paranaense do século XXI passa pelas artérias das cenas curtas nutridas de 2005 a 2012 e ora retomadas. O sistema dialógico da mostra, convencionado pelo tempo, os presumidos 15 minutos, deixa os criadores voarem soltos em suas poéticas, pensamentos e fazeres. Não poderia ser diferente, é verdade. A atitude feminina das criadoras e produtoras Marcia Moraes, Greice Barros e Sueli Araujo delineia os encontros com afeto, fe…