| O performer Zé Reis na provocadora cena 'Pós-Frango' } Elenize Dezgeniski |
A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do palco, o varal de asas de frango espetadas e a panela elétrica que assa nuggets no proscênio transmitem a ideia da festa no fundo do quintal ou no alto da laje. O cheiro do cozimento impregna e Zé Reis explora esse ambiente informal interagindo com o público. Seu corpo untado de óleo pelas mãos de uma espectadora lustra como a carne dourada que chegou ao ponto: desejante. O performer contraria. Assume tempos mortos como ao monitorar a fritura ao fundo ou assumir posturas frias, mecânicas, para logo quebrá-las em movimentos quentes, afeitos à dança contemporânea. Afirma assim a autonomia de voo como condição inescapável ao criador. O canto da soprano da ópera e a canção sertaneja universitária multiplicam as atmosferas desse trabalho que teve o artista Eduardo Bruno como provocador. Uma crítica à flacidez das imagens fixadas por violentas modulações de gosto ao sabor do mercado. (Valmir Santos)
| Cena critica o falso brilhante do culto ao corpo } Elenize Dezgeniski |
Comentários