Pular para o conteúdo principal

Logorreia

Cena de Apple Store...
Foto: Lidia Ueta


Por Valmir Santos

O império do acaso bem combinado. Na era digital absoluta, o núcleo Expressão Criação captura o aleatório para a sua rede organizada no amontoado de informações. O espaço cênico vira uma globosfera surrealista com suas distorções que não estão na tela, mas na teia de cena, na logorreia de frases desconexas que ao final se arranjam. Um sujeito de perna cortada e carregada a tiracolo. A loira de vestido longo e falas sentenciosas sobre artes e exposições. O infomaníaco com suas decifrações do sistema. Uma sapa vestida de noiva, vermelho dos pés à cabeça de grinaldas antenadas.

Em meio à aparentemente despretensão, na xepa de frutas decepadas, seus sumos a perfumar o ambiente, Apple Store & As Subfrutas da Estação destila humor parafraseado por imagens pinceladas na paródia. Serve-se da memória epistolar de dois nomes-chave da arte contemporânea brasileira, Lygia Clark e Hélio Oiticica. São excertos de cartas lançados ao liquidificador para abrir outras janelas que possam revelar outras faces do presente de fronteiras diluídas.

Há irreverência e certa iconoclastia emprestada dos artistas plásticos reverenciados nessa proposta que o grupo ambiciona configurar espetáculo futuramente. O que se vê condensado em cena curta é uma provocação bem fundamentada do tema abordado e sua complexidade natural, mitificada ainda sob a personalidade de Steve Jobs, o fetiche por tablets e afins. Resta muita dispersão no material disposto, mas o prenúncio de uma real conexão com o público já está lançado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sem pena

A objetificação da mulher é tão brutal na sociedade machista que quando ocorre o inverso – o corpo masculino tratado como carne na vitrine –, poucos se dão conta. A performance Pós-frango faz uma articulação estética e filosoficamente bem urdida dessa espécie de contradição. O ator e dançarino Zé Reis, da companhia brasiliense Errante, perpassa imagens figurativas e disruptivas. Pelado, ele alude a estereótipos e convenções a partir de um corpo escultórico, evidenciando músculos que servem ao gogo boy ou ao fisiculturismo. E à arte, claro. Como as aparências enganam, mas, enfim, aparecem – já dizia Leminski –, os desfazimentos dessa plasticidade fútil por volumes e relevos outros tornam as suspensões poeticamente forjadas nesse mesmo corpo sobreposições maleáveis e sofisticadas desse mesmo material capturado do registro grosso da paisagem urbana. Estendido de uma ponta à outra na dianteira do palco, o varal de asas de frango espetadas e a panela elétrica que assa nuggets no proscênio …

Ação de despejo

No mundo vasto mundo da cena curta, dificilmente uma criação imprime um percurso que possa se inferir com começo, meio e fim. A elaboração dramática em “Pour Poor Andy”, do Grupo P.U.T.O., assume unidades temporais e espaciais e, dentro delas, comete deslocamentos de percepção que enriquecem o imaginário em torno da mulher que faz da sua casa e do seu corpo não-lugares. Ela admite o quanto é ruim não se reconhecer em seu próprio corpo, equivalente à atitude de trancar-se no banheiro em plena festa que acontece em sua casa. É um achado a síntese construída em torno do ser associal, capaz de incomodar-se com o ruído da própria presença. A excelência técnica da intérprete Juliane Souto, também ela dramaturga, cria um colchão de gênero musical na dobradinha de voz e teclado com o músico Álvaro Antonio. Um colchão rítmico, em todos os sentidos, para deitar a solidão e a clausura da personagem. O jazz se traduz nas partituras físicas e nos desenhos de luz e da cenografia. Nem a delimitação …

Obscenas é que não são elas

E tudo recomeça do avesso. No verso, na “bunda” do teatro. O som do sapateado – em crescendo – detrás dos portões que dão acesso ao palco para carga e descarta de material. Ouvimos o sol sob os sapatos flamencos. A imaginação vai longe. Suspense. O que vem são quatro ciganas de pernas abertas e de peito aberto para tourear o machismo explícito e secular das sociedades, não importa a topografia. Na Antiguidade, assassinatos e batalhas sangrentas eram chamados obscenos por acontecerem fora do alcance da visão do público. Aqui, o espectador entra pelos fundos, permanece em pé, pode se agachar na clareira da cena no tablado ou avançar para os assentos da plateia propriamente dita, nos rearranjos e angulações possíveis para encontrar o campo de relação com a experiência. Em “Con la Carmen no Te Metas”, a Súbita Companhia de Teatro subverte o entendimento daquilo que está por trás do que está por trás. Escancara a obscenidade da violência contra a mulher, esse corpo-território disputado des…