Pular para o conteúdo principal

Prêtà-porquê – Cia portátil



A cena da Cia Portátil, assim como a cena que se apresentou logo antes, da Cia 5 cabeças, também atingiu um ponto de relação com o espectador que abre possibilidades para a Mostra agregar um público espontâneo, que não está comprometido com o teatro ou com os integrantes dos grupos que estão se apresentando no evento.

O que me parece mais pungente na cena é a presença dos contrastes internos. O humor é simples, declarado, imediato. No entanto, o que chega para o espectador não é só o divertimento, mas um divertimento entrecortado de diversas outras sensações. Um dos contrastes mais visíveis da cena parece ser a instituição da espetacularidade mesmo sem a presença de números propriamente espetaculares. Os signos usados na encenação inscrevem a cena dentro de um contexto que não prevê uma atitude crítica, mas uma exibição de habilidades. O que a cena traz é exatamente o oposto, o deboche do virtuosismo. Assim, a comicidade vem à tona, mas recheada de comentários e de perguntas.

A cena também brinca com a estrutura ilusionista da caixa preta do teatro, aproximando esse artifício do teatro com os truques do prestidigitador. O ventríloquo, que também apareceu, embora de outro modo, na cena “Looners”, aparece aqui completamente subvertido. O aspecto destruído da boneca já anuncia que não se trata de um número engraçadinho, mas o conteúdo da fala em off da moça entrevistada, representada pela boneca, ultrapassa aquele sinal de aparente decadência. A tristeza da sua história, a violência que ela sofre, surpreende a cada fala e comove o espectador, enquanto todo o entorno da cena deixa o espectador à vontade para rir. O riso vem difícil e chega a causar constrangimento. É nesses momentos que fica bastante perceptível que a simplicidade na lida com a forma engendra, na construção da cena, uma grande sofisticação.

A cena em si, com suas diversas partes, não parece muito complexa, mas o estado de espírito provocado no espectador é, por sua vez, bastante complexo. O grupo tem um grande mérito por essa realização. Pela facilidade em lidar com o cômico, os integrantes poderiam simplesmente fazer cenas engraçadas, imitar coisas de circo, se vestir a caráter, contar piadas, etc., mas optaram por operar uma subversão dos procedimentos do circo e da relação do espectador com o riso. Foi um acerto da curadoria e da organização fechar a apresentação das cenas inscritas na Mostra com “Prêtà-porquê”.

Por Daniele Avila
Foto: Elenize Dezgeniski

Comentários

jussara disse…
puxa...em nome da cia.os nossos agradecimentos pela sensível leitura!
Anônimo disse…
Quando será o desfile das campeãs em Araucária?
portátil disse…
ixi, já foi anônimo.
Anônimo disse…
cena breve deveria se chamar ação entre amigos.....sempre entram os mesmos....independente de curriculo e de quanto tempo atuam...

Postagens mais visitadas deste blog

Zona erógena e cócegas

Cena  parte de texto de catalão e é dirigida por André Carreira }  Elenize Dezgeniski Em “Romeu e Julieta”, o frei Lourenço afirma que “Esses prazeres violentos têm finais violentos/ E, em seu triunfo, morrem como o fogo e a pólvora./ Que se consomem quando se beijam”. Para além do fundo histórico e social da tragédia, a impossibilidade da consumação do amor juvenil em Shakespeare talvez nos diga mais sobre a sabotagem dos desejos na contemporaneidade. Um prolongado beijo entre personagens que se dizem irmãos, ele e ela, é um dos múltiplos ruídos propositalmente desestabilizadores em “La Belle Merde”, do Grupo Teatral (E)xperiência Subterrânea, de Florianópolis. A objetividade científica da forma expositiva vem associada à apresentação de seminário ou conferência que aparenta se passar em sala de convenção ou sala de aula, ainda que sugira a neutralidade de um ambiente com uma cadeira e uma mesa discretas, além da luz invariável. Os atores Lara Matos, Lucas Heymanns e Mar...

Pecinhas para uma tecnologia do afeto – o teste – Teatro de ruído

O grupo Teatro de Ruído apresentou sete pequenas cenas espalhadas pelo espaço do Teatro da Caixa, todas em fase de experimentação – e por isso o subtítulo “em teste”. O espectador fica livre para escolher se assiste a uma cena ou se tenta transitar pelo espaço, para assistir pequenos trechos de duas ou mais cenas. Quem não conhece o grupo fica sem ter nenhum critério pra fazer uma escolha, sem nenhum norte que dê uma sugestão de por onde começar. Muitas pessoas, como eu, acabaram não vendo praticamente nada. Outras, que acompanharam alguma cena do início até o fim, ficaram sem perceber o que as cenas poderiam ter de comum, salvo pelos rastros dos dispositivos cênicos espalhados pelo espaço. Mesmo assim, foi possível perceber uma preocupação do grupo com a visualidade das cenas como partes de um todo, o que se expressava por um tratamento comum nos figurinos: os mesmos materiais, cores e texturas. Por outro lado, não havia uma preocupação com a visibilidade das cenas. É como se o públic...

Ronca o rancor

Princesa Ricardo (Marinelli) critica e escarnece da onda reacionária  }  Elenize Dezgeniski Provérbios, chavões, lugares-comuns, tanto faz, eles abundam na figura da Princesa Ricardo em “Das Tripas Coração”, arremedo de ópera-bufa em que o performer Ricardo Marinelli captura pela unha a narrativa reacionária que o Brasil nunca viu tão descarada. E dela escarnece apoiada nos vícios de linguagem. Funciona muito bem a analogia dos excessos diante da realidade transbordante, da virulência com que as vozes conservadoras perderam os pudores na desqualificação do diferente. A cena desossa o senso comum e abre outras portas para mostrar que os significados (das coisas, das vidas, das palavras) sofrem um desgaste sem precedentes no atual quadro sociopolítico. Texto-depoimento e ações podem soar literais ou desarmônicas, permitindo ao espectador um exercício permanente de verificar os anacronismos entre fala e expressão corporal que chamam ao pensamento crítico. Para essa figura...