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Um corpo em transformação

por Luciana Romagnolli
"Makunaíma...". Foto de Lidia Sanae Ueta.

Ao trabalhar uma dramaturgia do corpo, um grupo como o franco-brasileiro Dos a Deux molda narrativas nítidas, a exemplo do espetáculo “Saudade em Terras D’Água”, prescindindo de palavras para que a história se desvele aos olhos do público. É um efeito distinto do obtido pela construção corporal do ator Milton Aires na cena “Makunaíma: A Árvore do Mundo e a Grande Enchente”, do Estúdio Reator e Coletivo Miasombra (PA). Sua intenção de recontar as histórias do herói brasileiro se afasta da clareza narrativa em benefício de um jogo de ações, do qual se depreendem algumas das metáforas e situações, mas por vezes a nitidez se borra e o jogo se fecha na relação do ator com o texto, num alheamento do público. 

O trabalho minucioso de Milton Aires sobre a gestualidade, os movimentos, reações e tempos de seu corpo sustenta a cena, ancorada em um espaço circular virgem, delimitado pela luz, a ser povoado pelas associações forjadas em seu deslocamento. Um corpo em devir-índio, devir-bicho, devir-planta, hábil também em dissociar suas partes. Corpo-cenário, corpo-figurino. Enfim, um corpo cênico, com incontida potência de transformação.

O protagonismo de sua corporeidade expandida é pontuado por uma língua incompreensível, que incorpora raras palavras da civilização que a confronta, como foi o choque indígena com o europeu – a camisa da seleção brasileira é símbolo mais explícito desse contato. Abdicado o desenho mais claro de ações, o encontro com o público repete o estranhamento do choque inicial entre culturas distintas, com seus efeitos de fascínio pela beleza desconhecida e de um possível distanciamento diante de sequências longas de ações ilegíveis.      

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