por Luciana Romagnolli
O espírito circense conduziu a noite de abertura da 8ª Mostra Cena Breve. Primeiro, com o brevíssimo cortejo de "Cyrk", pelo qual o Trio Quintina e convidados espalharam sua música em frente ao Sesc da Esquina criando uma atmosfera lúdica pelo recurso às máscaras de bichos, perna de pau e a um homem-banda, e preparando a sensibilidade do público para a mostra que se inicia. Como um aperitivo.
Dentro do teatro, a Cia. Rústica mostrou outra vertente de seu trabalho, personalizada no ator-palhaço Heinz Limaverde e seu "O Fantástico Circo Teatro de um Homem Só". Ao ser habitado por Limaverde e suas memórias de vida e arte, o palco se transforma em espaço de expressão do eu, que tenta concilar seus fragmentos em uma narrativa coerente, para dar sentido a uma trajetória que parte do interior cearense para a capital gaúcha e que conjuga, mais do que linguagens cênicas distintas, sonhos infantis à realidade adulta.
Salta ao primeiro plano o autodeboche com a aparência fora de padrões socialmente idealizados exposta e manipulada pelo ator, de modo a fazer a crítica, por vezes sutil e outras ácidas, atingindo inclusive as reações da plateia que tem diante de si, sem se negar a entretê-la. Ao contrário, o riso do público é pretendido e estimulado como um valor para o espetáculo, que celebra as artes populares, desde as menos providas de recursos, como o circo itinerante sem lona, às opulentas produções do teatro de revista e, alterando radicalmente o conceito de popular para pop, os musicais hollywoodianos. Limaverde ressalta a precariedade das condições de vida do artista. Expõe a feiura, a pobreza, a faceta menos elevada do humano, mantendo no horizonte um ideal de sublime. O risco de seu discurso é resvalar na autocomiseração - uma linha tênue.
A dramaturgia se sustenta na oscilação. Há mergulhos na representação, a evocação saudosista das linguagens artísticas antes citadas, materializadas em figurinos e na construção corporal e vocal do versátil ator, sempre em tom conciliatório de tributo. E há momentos de enfraquecimento da representação e acentuação da presença, como ator de si mesmo que interpela diretamente a plateia e expõe uma consciência crítica ultrapassando os clichês repisados em espetáculos sobre as recordações do circo e da infância. Essa tensão é que sustenta a exposição pessoal reelaborada artisticamente por Limaverde e a mantém apartada dos limites da ingenuidade dos tributos e da memória, impondo um olhar contemporâneo e amadurecido sobre o pretérito e o presente.
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"Cyrk Cortejo". Foto de Lidia Sanae Ueta. |
O espírito circense conduziu a noite de abertura da 8ª Mostra Cena Breve. Primeiro, com o brevíssimo cortejo de "Cyrk", pelo qual o Trio Quintina e convidados espalharam sua música em frente ao Sesc da Esquina criando uma atmosfera lúdica pelo recurso às máscaras de bichos, perna de pau e a um homem-banda, e preparando a sensibilidade do público para a mostra que se inicia. Como um aperitivo.
Dentro do teatro, a Cia. Rústica mostrou outra vertente de seu trabalho, personalizada no ator-palhaço Heinz Limaverde e seu "O Fantástico Circo Teatro de um Homem Só". Ao ser habitado por Limaverde e suas memórias de vida e arte, o palco se transforma em espaço de expressão do eu, que tenta concilar seus fragmentos em uma narrativa coerente, para dar sentido a uma trajetória que parte do interior cearense para a capital gaúcha e que conjuga, mais do que linguagens cênicas distintas, sonhos infantis à realidade adulta.
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"O Fantástico Circo Teatro de um Homem Só". Foto de Lidia Ueta. |
Salta ao primeiro plano o autodeboche com a aparência fora de padrões socialmente idealizados exposta e manipulada pelo ator, de modo a fazer a crítica, por vezes sutil e outras ácidas, atingindo inclusive as reações da plateia que tem diante de si, sem se negar a entretê-la. Ao contrário, o riso do público é pretendido e estimulado como um valor para o espetáculo, que celebra as artes populares, desde as menos providas de recursos, como o circo itinerante sem lona, às opulentas produções do teatro de revista e, alterando radicalmente o conceito de popular para pop, os musicais hollywoodianos. Limaverde ressalta a precariedade das condições de vida do artista. Expõe a feiura, a pobreza, a faceta menos elevada do humano, mantendo no horizonte um ideal de sublime. O risco de seu discurso é resvalar na autocomiseração - uma linha tênue.
A dramaturgia se sustenta na oscilação. Há mergulhos na representação, a evocação saudosista das linguagens artísticas antes citadas, materializadas em figurinos e na construção corporal e vocal do versátil ator, sempre em tom conciliatório de tributo. E há momentos de enfraquecimento da representação e acentuação da presença, como ator de si mesmo que interpela diretamente a plateia e expõe uma consciência crítica ultrapassando os clichês repisados em espetáculos sobre as recordações do circo e da infância. Essa tensão é que sustenta a exposição pessoal reelaborada artisticamente por Limaverde e a mantém apartada dos limites da ingenuidade dos tributos e da memória, impondo um olhar contemporâneo e amadurecido sobre o pretérito e o presente.
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