Pular para o conteúdo principal

Meu sonho é participar de um filme de Pedro Almodóvar - Pé no palco



A cena apresentada pelo círculo de encenação e pesquisa Pé no palco, “Meu sonho é participar de um filme de Pedro Almodóvar”, pode levantar algumas questões interessantes sobre a tentativa de trazer para o teatro uma referência de cinema. A questão é pensar qual recorte, qual ponto de vista do cinema de Almodóvar foi escolhido pelo grupo e o que esse recorte sugere para a construção de uma cena.

Acredito que o grupo tenha preferido fazer um recorte temático e visual, aspectos que vêm à tona mais imediatamente num contato inicial com a filmografia do diretor. Deste modo, as cenas tomaram um caminho mais ilustrativo, trazendo para o palco algumas cenas parecidas com as de alguns filmes, mas sem a preocupação com a forma de fazer as cenas, com o modo de dar a ver aquelas histórias, uma característica forte dos filmes de Almodóvar. É como se o grupo quisesse dar uma amostra das cores do Almodóvar, mas sem se preocupar com as suas linhas. Acredito que para fazer uma transposição de uma linguagem para outra, este “como dar a ver” é um grande desafio.

A proposta mesma da cena poderia nos prender aqui numa discussão extensa sobre as especificidades do teatro e do cinema, mas penso ser mais interessante deixar a referência externa um pouco de lado e falar sobre o que se pode perceber, vendo de fora, sobre a linguagem do grupo. Talvez seja possível dizer que o grupo trabalha com uma estética de teatro amador, não o teatro que é amador porque é iniciante e está em vias de se tornar profissional, mas do teatro amador propriamente dito, que talvez tenha uma simplicidade na lida com os registros de atuação e uma relação mais imediata com a reação do público. Não se trata de uma questão temporal, de um momento em uma trajetoria, mas de um contexto específico, uma questão, por assim dizer, cultural. Ficou a impressão de que o grupo tem uma cultura particular de teatro, familiar ao público que freqüenta o grupo.

Coloco essa questão aqui mais como uma forma de tentar perceber o trabalho do grupo do que como um problema que precisa ser resolvido. A questão cultural está sempre presente, tanto nos artistas quanto nos espectadores e nos críticos. Tanto o fazer quanto o olhar têm os seus vícios culturais. Mas a questão me pareceu importante porque a Mostra, com a sua mistura de grupos de diferentes estados e outros olhares estrangeiros, parece instigar a expansão dos nossos limites culturais. Como esse foi o grupo que até agora mais me fez pensar nessa característica da produção teatral, a relação com os costumes da cidade, do bairro, da história do teatro local, penso que esta seja uma boa oportunidade para apontar essa questão. Qual é o diâmetro do círculo em que os grupos querem se inscrever? Até que ponto vai a vontade de expandir seus horizontes culturais e em que medida prevalece o hábito de ficar à vontade com as suas premissas já conhecidas?

Por Daniele Avila
Foto: Elenize Dezgeniski

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pecinhas para uma tecnologia do afeto – o teste – Teatro de ruído

O grupo Teatro de Ruído apresentou sete pequenas cenas espalhadas pelo espaço do Teatro da Caixa, todas em fase de experimentação – e por isso o subtítulo “em teste”. O espectador fica livre para escolher se assiste a uma cena ou se tenta transitar pelo espaço, para assistir pequenos trechos de duas ou mais cenas. Quem não conhece o grupo fica sem ter nenhum critério pra fazer uma escolha, sem nenhum norte que dê uma sugestão de por onde começar. Muitas pessoas, como eu, acabaram não vendo praticamente nada. Outras, que acompanharam alguma cena do início até o fim, ficaram sem perceber o que as cenas poderiam ter de comum, salvo pelos rastros dos dispositivos cênicos espalhados pelo espaço. Mesmo assim, foi possível perceber uma preocupação do grupo com a visualidade das cenas como partes de um todo, o que se expressava por um tratamento comum nos figurinos: os mesmos materiais, cores e texturas. Por outro lado, não havia uma preocupação com a visibilidade das cenas. É como se o públic...

A construção do amor romântico

por Luciana Romagnolli "Como Desaparecer Completamente", do Ateliê Voador Companhia de Teatro (BA), é outra cena que, em seu desenvolvimento, toma um desvio que a distancia dos estímulos iniciais. Os atores Duda Woyda e Lucas Lacerda ocupam um palco nu, onde setas impressas no chão induzem direções. Desdobram um diálogo amoroso permeado de perda e descompasso. A imaginação do espectador é instigada a revestir a crueza dessa encenação, à medida que as falas sugerem imagens - como a de um homem e uma mulher - às quais a materialidade visível não corresponde, num atrito entre a artesania teatral e a ficção. O despossamento da ilusão se acirra por um mecanismo de inversão, que repete a trama com as vozes trocadas, confundindo mais as identidades, despregadas dos indivíduos corporificados. Essa segunda versão do diálogo intesifica os tons românticos, aproximando-se, pelas atuações e pela trilha sonora ...

Ronca o rancor

Princesa Ricardo (Marinelli) critica e escarnece da onda reacionária  }  Elenize Dezgeniski Provérbios, chavões, lugares-comuns, tanto faz, eles abundam na figura da Princesa Ricardo em “Das Tripas Coração”, arremedo de ópera-bufa em que o performer Ricardo Marinelli captura pela unha a narrativa reacionária que o Brasil nunca viu tão descarada. E dela escarnece apoiada nos vícios de linguagem. Funciona muito bem a analogia dos excessos diante da realidade transbordante, da virulência com que as vozes conservadoras perderam os pudores na desqualificação do diferente. A cena desossa o senso comum e abre outras portas para mostrar que os significados (das coisas, das vidas, das palavras) sofrem um desgaste sem precedentes no atual quadro sociopolítico. Texto-depoimento e ações podem soar literais ou desarmônicas, permitindo ao espectador um exercício permanente de verificar os anacronismos entre fala e expressão corporal que chamam ao pensamento crítico. Para essa figura...